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Dec 3rd
A maior comunidade festivaleira nacional não pára de crescer, se ainda não nos segues, talvez seja tempo disso. Aproveitamos também a oportunidade para agradecer a todos os que fazem parte desta comunidade.
Reportagem Within Temptation no Coliseu de Lisboa
Oct 15th
Noite negra e esgotada, no regresso do grupo de culto (ou talvez seja o género em si que é um culto por cá) ao país, após uma passagem pelo Porto. Muitas t-shirts negras, algumas quarentonas com rendas nos braços, piercings com mais de 10 centímetros (sem exageros), e um público com grande parte dele numa faixa etária acima dos 30 ou até dos 40, mostrando bem o tipo de público devoto que os Within Temptation têm por cá. Camarotes cheios, plateia cheia, público até no último andar do coliseu… já há algum tempo que os alfacinhas não enchiam assim a sua sala.
E a noite começou, exactamente, com gente de cá em palco. Os Kandia, que abriram a noite, conseguiram conquistar graças a um rock forte e energético, de músicas longas e bem pensadas. Foi uma escolha ideal para a noite, já que se encaixam na perfeição dentro do género da banda principal, e tiveram portanto à sua frente o público ideal. Uma vocalista com genuíno prazer no que fazia, um óptimo guitarrista (a guitarra é, aliás, o cerne de tudo), e um baterista e um baixista em sintonia perfeita. Uma primeira parte bem dada, que serviu na perfeição para aquecer as hostes. No futuro, talvez venhamos a ouvir falar mais deles.
Meia-hora depois, começava o espectáculo dos Within Temptation. E espectáculo é, de facto, a palavra certa. Um palco de dois andares, um ecrã gigante (de excelente qualidade) que ia projectando vídeos em cada música, um jogo de luz impressionante… um belo jogo audiovisual, bem pensado e executado, dado por uma banda que obviamente se preocupa com a imagem que projecta.
Preocupa-se, aliás, talvez demais. Começar o concerto com uma curta-metragem talvez não tenha sido a melhor ideia, tal como não o foi mostrar outra mais à frente. Percebe-se que queiram enquadrar e dar a mostrar o suposto conceito por trás do último álbum que agora apresentavam, The Unforgiving (do qual tocaram praticamente tudo), mas pedia-se mais subtileza. Afinal de contas, aquilo acabou por se reflectir como um golpe no ritmo do concerto, e, simplesmente, não acrescentou rigorosamente nada. E para quê tantos vídeos em cada canção, e todos eles por vezes tão pensados e, ao mesmo tempo, tão aleatórios? Porque é que haviam javalis em CGI que pareciam saídos do World of Warcraft?
Porque é que aquele homem estava a lutar no ecrã com outro? E como é que de repente ele fica sem t-shirt e começa a chover (isso deve ter sido ideia da Sharon)? Todo o aparato visual destoou por vezes, distraindo até daquilo que era o que realmente interessava: a música. Não há problema nenhum em fazer um espectáculo assim, claro. Mas faltou uma fusão entre o que se ouvia e o que se via (algo, por exemplo, tão bem conseguido por Sufjan Stevens, que tocou naquela mesma sala este ano).
Claro que esta acabou por ser uma falha menor, que se ia revelando apenas em certos momentos (a sério, aqueles javalis…) no concerto de uma banda que, efectivamente, talvez se preocupe demasiado com mitologia celta/druida e afins (mas, lá está, deve ser também isso que os fãs adoram neles). O concerto, francamente bom do início ao fim, raramente deixou de ser imponente e impressionante, não tanto pelo aparato já mencionado, mas antes pelas canções em si, tão potentes e tão bem tocadas, sempre apoiadas pela bela voz de uma óptima vocalista. O último disco resulta francamente bem ao vivo, tal como o início com Shot in the Dark demonstrou logo. Energia pura, sob a forma de acima de tudo dois bons guitarristas, que preenchem todo o espaço do coliseu com ondas de ruído.
O alinhamento concentrou-se, portanto, maioritariamente no último disco, mas não faltaram também os êxitos do passado. "Ice Queen" foi recebida de braços no ar (muitos deles, mas mesmo muito, com telemóveis ou máquinas fotográficas na mão), tal como "The Howling", a apoteótica "Our Solemn Hour" (espectacular ao vivo) ou, claro, a inevitável "Memories" (momento lindíssimo). Sentia-se no ar a devoção pura de um público que estava ali a cantar as letras a altos berros, com os seus ídolos em palco. A banda parecia ela própria satisfeita, mesmo não estando particularmente comunicativa. Os sorrisos eram constantes, raramente se afastavam da berma do palco, e foi em particular nos encores, tocados com tanta diversão quanto alma, que se viu bem o quanto gostavam de ali estar. O público, esse, mostrou-se quase religioso do início ao fim.
Tinha bastado Memories, a terminar o corpo principal do alinhamento, para a noite estar ganha, mas os dois encores asseguraram-se de que a qualidade se mantinha lá em cima. "Deceiver of Fools", a fabulosa e muito aplaudida e cantada "Mother Earth", compuseram o primeiro, tendo ficado Stairway to the Skies (a última do mais recente disco) tido a honra de encerrar na perfeição uma noite que ficará provavelmente marcada na memória dos milhares de fãs que encheram o coliseu. No final, a banda faz uma vénia, e desce até do palco para cumprimentar os fãs; algo raro, hoje em dia.
Para os grandes fãs, deverá ter sido uma noite memorável, que irão relembrar por muito, muito tempo; para os curiosos (como eu), foi sem dúvida um belo concerto.
Há cultos que não se percebem, bandas que ao vivo são incompreensivelmente adoradas e aplaudidas.
Os Within Temptation, felizmente, defendem ao vivo muito bem o seu repertório, e dão um concerto impressionante e (e este é talvez o maior elogio) consistente, onde os bons momentos se vão sucedendo. Podemos não partilhar o culto… mas com concertos assim, este percebe-se.
Reportagem Super Bock Super Rock 2011
Jul 18th
A 17ª edição do festival Super Bock Super Rock teve, de novo, lugar na Herdade do Cabeço da Flauta. O slogan devia ser “Meco, Pó e Rock n’ Roll”. Este ano, pouca gente deixou o lenço de pescoço em casa e o número de máscaras aumentou comparativamente ao ano passado. Na verdade, se ultrapassarmos o pesadelo que é chegar ao recinto e o pesadelo maior que é estar, de facto, lá, vemos que o festival tem tudo para ser um dos acontecimentos do ano: cabeças de cartaz enormes e um palco alternativo recheado de apostas em artistas novos e artistas que já provaram ter algo a dizer que merece realmente ser ouvido.
No entanto, o recinto em si é a pedra no sapato de toda a gente. A quantidade de pó não deixa de surpreender e o espaço não é suficiente para albergar o número de passes que foram postos à venda este ano. As condições de som também não permitem este número absurdo de pessoas, tendo em conta que mais de metade dos espectadores do palco principal não ouviram quase nada de todos os concertos que ali se passaram. As melhorias não o são, na verdade: o chão em frente ao palco principal é inacreditável. Não há quem não tenha passado a maior parte dos concertos a raspar o chão e afastar troncos de madeira de tamanho considerável de modo a conseguir ter ambos os pés à mesma altura.
Mas as pessoas estão lá pela música. E a música, apesar de tudo o resto, é boa.
Coube aos Sean Riley & The Slowriders as honras de inauguração do palco principal (e de todo o festival). O trânsito não nos deixou chegar a tempo de avaliar a prestação da banda de Leiria, mas soubemos que “It’s Been a Long Night” ficou muito bem representado, apesar das falhas de som que levou a banda a oferecer abraços pelo público.
À nossa chegada - com uma pequena corridinha para chegar a tempo - estavam também os The Glockenwise a entrar em palco. Vindos directamente de Barcelos, têm-se mostrado um pouco por todo o pais. O cheirinho a Milhões de Festa (festival que o vocalista Nuno Rodrigues fez questão de publicitar, sem papas na língua) sentia-se um pouco no ar mal os víssemos a eles e a El Guincho em cartaz. Building Waves ainda tem cartas para dar. Por mais apresentado que esteja um disco, uma coisa que puxa ao mexer de pés como este puxa, não é coisa para se deixar na gaveta (como insistem em deixa o EP de estreia).
O concerto teve início com “It’s Not a Dead End But It Most Certainly Looks Like One”, música que termina o primeiro longa duração do quarteto. “Local Song for Local People” e “Stay Irresponsible” foram as responsáveis por o espaço em frente ao palco se começar a compor, a última foi a responsável pela guitarra do Rafa desistir (como viria a acontecer pelo menos mais três vezes durante o concerto – tudo culpa da correia).
Curiosos e fãs (vindos de Barroselas e de Barcelos) enchiam um recinto que se iria tornando cada vez mais pequeno. Uma banda já de si muito simpática, agradeceu a toda a gente por os ter ido ver, confessando não esperar um público tão grande. Até o mosh teve espaço, em “Columbine (Out of this Town)” ou “Scumbag”. Sem lhes tirar o mérito devido, o público teve certamente um papel fulcral na boa prestação dos barcelenses que pisavam pela primeira vez um festival “grande”.
Pelas 20h20, entram em palco os The Walkmen. Os norte-americanos estavam felizes por regressar e por ter tanta gente a assistir ao espectáculo. «We love it here, we named our álbum after the place!», grita o vocalista Hamilton Leithauser mencionando o álbum Lisbon da banda. A abrir, “On the Water”. O público já estava rendido e os fãs eram muitos. “Woe Is Me” seguiu-se-lhe enquanto mais e mais gente se reunia para ver a banda. Os fãs sabiam as letras e “In the New Year” mostrou isso mesmo.
A banda equilibrou temas antigos e temas recentes. Tocaram uma música nova, composta há semanas, ainda sem nome, que foi bem recebida pelos espectadores. Logo a seguir, a primeira música escrita pela banda – “We’ve Been Had” – bem conhecida de todos. Para o fim, depois da apresentação da banda, ficou “The Rat”, a favorita do público. A letra não falhou a ninguém e as palmas acompanhavam a bateria efervescente de Matt Barrick. A fechar o concerto esteve “All Hands and the Cook”.
Há quem diga que John Lennon voltou, e que lançou um disco na Austrália. Ouvindo Innespeaker, percebemos porquê. Era chegada a vez de “uma das melhores bandas do mundo” (segundo o Nuno dos The Glockenwise). Os Tame Impala chegam-nos directamente da terra dos cangurus com um disco ainda fresco apesar de ter mais de um ano, a estrear o palco EDP de nomes internacionais. Largamente aplaudidos à chegada, entram timidamente com “Why Won’t You Make Up Your Mind?”, com alguns problemas de som.
É que nem todo o palco está pronto para este tipo de psicadelismo, com guitarras a soar a plástico e no entanto tão perfeitamente arranhadas. Durante “Solitude is Bliss”, uma multidão bem feita entoava baixinho as letras do single. “It Is Not Meant to Be” preparava-nos para “Alter Ego”, o momento mais dançável do concerto - para alguns, houve bem quem não parasse durante “Desire Be Desire Go” em versão extended. "É de lamentar que ainda haja público a achar que tem piada apontar lasers aos músicos": Se não teve piada nenhuma durante Iggy Pop no Alive!, durante “Island Walking” teve ainda menos. Os australianos despedem-se com “Half Full Glass of Wine”, esperemos que para voltar em breve.
Dois anos depois, The Kooks estavam de volta a Portugal. Na bagagem vinham temas novos do álbum ainda por lançar Junk of the Heart. Uma multidão sem fim reunia-se pelo recinto do palco principal para ver a banda de Brighton. Temas como “She Moves in Her Own Way”, retirada do primeiro álbum da banda e conhecida de todos, ou “Seaside” mostraram como as letras estavam ainda na memória dos fãs.
Todos os álbuns foram corridos e equilibrados com os temas ainda por vir do último trabalho da banda. “Junk of the Heart” e “Is it Me” (tocada pela primeira vez na rádio inglesa BBC Radio 1 nessa mesma tarde) foram acolhidas pelos espectadores e havia quem já soubesse as letras, inclusive. Dançava-se por toda a parte ao som de “Naive” e “Stormy Weather” e o vocalista Luke Pritchard passeava pelo palco de guitarra às costas notavelmente feliz por estar de volta.
Há alguém que ainda não saiba o que esperar dos espanhóis El Guincho? Já pudemos vê-los pelo menos três vezes a fazer o que fazem melhor, uma tropicália de sons, em ambiente mais que perfeito. A esta hora, já tínhamos os pés cheios de areia, e até soube bem. Os problemas de som mantinham-se no palco EDP e quase que aconselhávamos o Pablo a ir fazer o próprio som. “Kalise” não teve, de todo, a recepção que merecia. Grande parte do público parecia não saber como se mexer ao som da música (que pouco se ouvia, pelo menos algo mais alem do baixo) e ficámos todos a gravitar no espaço durante um bocado, até “Ghetto Facil” e “Soca del Eclipse”, do último Pop Negro.
O espírito Milhões de Festa instalou-se em “Palmitos Park”, sob uma lua cheia que iluminava o espaço – foi o próprio Díaz-Reixa a admiti-lo. Um festival que deixa marcas ao ponto de ser falado duas vezes no mesmo palco, só pode ser boa coisa. “Novias” e “Bombay” já estavam a deixar toda a gente treinada para os paços de dança obrigatórios – a nuvem de pó levantou-se e já não baixou. O adeus nunca feito com “Antillas” gerou o caos no EDP e não deixava vontade de que acabasse, mas ainda havia Lykke Li para encerrar o espaço. Os espanhóis despedem-se, elogiando o país de onde, pelos vistos, gostam de regressar vezes sem conta.
A anteceder os cabeças-de-cartaz, esteve Beirut. Zach Condon e a sua banda regressaram a Portugal para um concerto que encantou os fãs mas não fascinou o público do Meco. Com algumas palavras proferidas em português, o jovem músico apresentou temas dos seus trabalhos Gulag Orkestar e The Flying Club Cup, juntamente com temas já incluídos no seu último trabalho, The Rip Tide, com data de lançamento prevista para 30 de Agosto, como foi o caso de “Vagabond” e “Santa Fe”.
Longe do rock n’ roll, mas com uma variedade de sons e instrumentos admirável, foram temas como “Elephant Gun”, “Postcards from Italy” e “My Night With the Prostitute From Marseille” que fizeram as delícias dos fãs presentes. O som não chegou a todos, havia sítios onde se ouvia melhor a música das bancas da Sic Radical e afins. O músico mostrou a sua alegria em ter voltado e agradeceu a presença e apoio dos fãs, que entoaram as letras sem falhas.
O palco EDP encheu-se de luzes e panos pretos do chão à altura dos holofotes. O cenário estava pronto e o público aguardava a entrada da sueca Lykke Li em palco. Esperava-se um concerto com muita energia, como a cantora nos tem vindo a habituar, mas todos estavam de pé atrás por causa do tom mais calmo que o seu último trabalho, Wounded Rhymes, tinha adquirido.
Para dar início, ouviu-se “Jerome”, do último álbum, um belo tema. De véu preto, que tirava e colocava durante os temas para os dramatizar a seu bel-prazer, Lykke Li empunhava a sua baqueta e dava vida à sua percussão (menos vezes que o que se esperava ver, no entanto). O recinto enchia e acolheu com furor “I’m Good, I’m Gone”. Não foi suficiente, no entanto, já que se ouviu a sueca gritar «you’ve got to give me more than that!» no final do tema.
A sua vontade foi feita e uma multidão eufórica recebeu “Sadness is a Blessing”, um dos singles retirados de Wounded Rhymes. No alinhamento, constaram duas covers: “Silent Shout”, de The Knife e “Until We Bleed”, de Kleerup. “Little Bit”, a habitual favorita, foi recebida com entusiasmo e para o fim ficou a explosão de “Get Some”. Apesar do receio de que este fosse um concerto menos espectacular da sueca, a verdade é que a cantora conseguiu conferir força ao seu último álbum, deixando todos com vontade de um espectáculo em nome próprio por terras lusas.
Em posição de cabeças de cartaz, os ingleses Arctic Monkeys regressam a estas bandas para mostrarem Suck it and See, álbum que deixa algumas reservas em casa, mas que em concerto se traduz nos clássicos macacos. Entraram em palco ainda antes da hora prevista, com “Library Pictures” e um jogo de luzes do qual as outras bandas não gozaram.
E se Suck it and See vinha como assunto principal, houve bastante espaço para temas mais antigos, “Brianstorm” e “This House is a Circus” os primeiros desse grupo a serem entregues a um público devoto que não deixava nada nem ninguém passar-lhes à frente. “Still Take You Home” ainda levou Alex ao chão, esperneando-se com a sua guitarra até voltarmos a assuntos sérios:
“Don’t Sit Down Cause I’ve Moved the Chair” e “Pretty Visitors”, dos dois últimos álbuns. Para os momentos de maior festa e danças por todo o recinto, serviram o clássico “I Bet You Look Good on the Dancefloor” e “When the Sun Goes Down”, antes do encore. A terminar este fantástico concerto, ouviram-se “Suck it and See”, seguida de “Fluorescent Adolescent”, culminando na fantástica “505”. Puro rock n’ roll.
Tivemos poucas oportunidades de passar pelo Palco @Meco, mas o que vimos chegou para perceber que Nicolas Jaar com banda e Tiago Miranda mantinham a tenda no mesmo nível de animação que o restante festival. O fim da noite ficou por conta de James Murphy, dono dos agora defuntos LCD Soundsystem e que levou o maior número de pessoas à tenda, ganhando para muitos o lugar de homem da noite no @Meco.
15 de Julho de 2011
Mais um dia de concertos no festival Super Bock Super Rock, marcado por temperaturas altas e música para todos os públicos, porém, a continuação de más condições. tanto nos acessos como no recinto. O pó e a sobrelotação do acampamento levou a que muitos festivaleiros se sentissem mal no decorrer do evento, no entanto, a vontade de ver as bandas adoradas como Arcade Fire e Portishead é maior do que o desconforto e tenta-se suportar tudo (ou quase tudo). Por volta das quatro horas da tarde, à hora da abertura do recinto, já podiam ser vistas inúmeras pessoas, quer sentadas à sombra das árvores, quer a marcar lugar na grade – pois avistavam-se dois grandes concertos que, certamente, ninguém queria perder.
Foi ao projecto Noiserv, de David Santos, que coube a honra de abrir o palco principal e, apesar de ter tido um público numeroso e ansioso por o ver tocar, não somos capazes de deixar de estranhar este início de alinhamento, uma vez que o cantor e intérprete certamente beneficiaria um palco menor com um ambiente mais intimista.
David Santos não se intimida, no entanto, e, com o seu arsenal de instrumentos e maquinarias, tal como com Diana Mascarenhas, encarregue dos desenhos a preto e branco que iam sendo projectados em metades opostas do palco, encantou um público que o recebeu de braços abertos, a si e aos seus temas acústico-electrónicos suaves. Parecem canções de embalar, mas revelam-se mais profundas que isso: ‘Melody Pops’ e ‘Consolation Prizes’ têm histórias por detrás que são reveladas por uma voz introvertida atrás de uma guitarra. O público encanta-se e o artista sai satisfeito.
Era a altura da actuação dos L.A. no canto oposto do recinto arenoso, um concerto que terá feito a delícia dos muitos espanhóis que se misturavam entre o público, no entanto, a nossa atenção esteve focada em
Rodrigo Leão. Acompanhado pelos Dark Jazz Ensemble, este ofereceu ao público um concerto que terá agradado em maior parte a um público mais adulto, conhecedor quer dos talentos quer do material do artista, mas que não deixou de ser agradável. O multifacetado Leão prima tanto pela construção instrumental elaborada como pela infusão de estilos muito diferentes, mas que nunca chegam a parecer distintos, e é um deleite especial ouvi-lo quando acompanhado pela voz fantástica de Ana Vieira. ‘Vida Tão Estranha’ todos reconhecem, já ‘A Corda’ e o novo tema ‘A Dor Mente’ passa mais ao lado e o concerto culmina em ‘Pasión’ - é com muitos aplausos que se despedem os versáteis músicos.
No palco secundário, é B Fachada que entretém as massas. Uma espécie de ave rara na cena musical portuguesa, é decerto que não agradará a toda a gente, mas transborda de auto-confiança e carisma de tal ponto que os seus concertos acabam por ter graça. Acompanhado por três músicos na sua banda, B Fachada passou por alguns dos temas que já são sua marca, como ‘Estar à Espera ou Procurar’ e mesmo ‘Zé’, muito pedida pelo público.
Este combina a voz teatral em Português às guitarradas acústicas de cantautor, lembrando Sérgio Godinho com um twist moderno, desdobrando-se em personagens nas suas letras quase como Fernando Pessoa. Já não é desconhecido do público português, relembramos que no festival Super Bock em Stock do ano passado também actuou para um São Jorge lotado, e é com toda a naturalidade que se juntaram muitas pessoas para assistir ao miúdo maravilha de língua afiada, mas de talento peculiar a transbordar.
Já o concerto de Paulo Furtado ou Legendary Tigerman, no palco secundário, não tivemos oportunidade de presenciar (são estes os pontos menos bons de um festival centrado em dois palcos), decidindo apanhar os The Gift, no palco principal, juntando-nos aos muitos que já marcavam lugar para lá ficar o resto da noite. No entanto, se todos estavam à espera de um best of da banda portuguesa na hora e pouco em que actuaram, os
The Gift decidiram trocar as voltas ao público e apresentaram, na sua grande parte, temas do novo álbum Explode. Evitam-se os grandes êxitos (menos os inevitáveis, como ‘Driving You Slow’) da grande carreira dos portugueses e entra-se num universo mais agitado, mais entusiasta, com um ligeiro desvio musical, do novo material.
Sónia Tavares e Nuno Gonçalves de tudo tentam para agitar a hoste, incitando-a, correndo pelo palco, no entanto, fica a impressão que os temas de Explode, como ‘RGB’ e ‘Made For You’ não têm o impacto nem a qualidade desejadas. De facto, é com uma certa despreocupação que se assistiu a este concerto, que nem aqueceu, nem arrefeceu.
Mudança mais anti-climática dificilmente houve nesta edição do Super Bock Super Rock, o que nos levou a questionar, novamente, o alinhamento deste segundo dia: chegou a altura dos Portishead tocarem no palco principal, num dos concertos que se afigurou como inesquecível para todos os presentes. Os ingredientes principais desta fórmula (quase) imbatível?
Em primeiro lugar, a estética assombrosa dos efeitos em loop das câmaras que filmavam a banda em palco, que tanto nos transportavam para os anos 80, como nos proporcionavam arrepios na espinha. Em segundo lugar, a voz belíssima de Beth Gibbons, que tem de doce e aterrador em doses iguais, e que é como o estandarte da imensa qualidade musical dos Portishead. É esta voz que nos leva de ‘Silence’, tema que abriu o concerto, para a muito aplaudida ‘Glory Box’ de Dummy (1994), através de um encanto tão grande que parece fantasia.
Por último, é a grande capacidade técnica, não só de execução como de mestria do som, dos restantes membros da banda, que os temas mais mecânicos como ‘Machine Gun’ e ‘The Rip’ são entregues ao público na perfeição. Teme-se o quebrar do feitiço, que à luz da lua parece mais forte do que nunca, no entanto, o público português não hesita em acompanhar Gibbons em temas como ‘Roads’ e ‘Wandering Star’. Foi ‘Over’ o momento alto da noite, num concerto de excelente qualidade, que serviu como um primeiro KO deste segundo dia do festival.
Chega, por fim, o final da noite, e sente-se no ar a ansiedade dos fãs portugueses, que já esperavam pelos Arcade Fire desde Novembro do ano passado. O cenário da banda canadiana envolve a tela de uma sala de cinema e é precisamente assim que começa o concerto, com a exibição de uma sequência de trailers retro e de uma pequena apresentação de Scenes from the Suburbs, o filme de curta metragem da sua autoria, realizado por Spike Jonze. Lançam-se as bases para a completa histeria do público português, exacerbada pela entrada dos músicos em palco e por uma ‘Ready to Start’ que se pronta imediatamente a irromper pela Herdade do Cabeço da Flauta.
Se os Arcade Fire já tinham um certo estatuto de banda de culto entre os portugueses, foi com esta terceira vez em Portugal (já tinham passado precisamente pelo festival Super Bock Super Rock, em 2007) que estes consolidaram uma base de fãs que roça o impressionante. Em ‘Keep the Car Running’ e ‘Neighbourhood #2 (Laika)’, o público não hesita em saltar, esbracejar e cantarolar, tanto as letras, como as próprias melodias, tanto que recebem de Win Butler, porta-voz e líder da banda, o enorme de elogio de lhes lembrarem porque actuam ao vivo. Ora, tamanha devoção a artistas não é rara, mas de uma dimensão tão grande é um ode à qualidade desta banda, que reúne tudo o que uma banda rock moderna deve ser e que se espalha por todos, sem nunca perder o que tem de único: a ligação com quem os ouve.
É, de facto, uma ligação muito especial que estabelecem com os seus fãs, quase espiritual, muito pautada por temas nostálgicos de uma juventude eterna que é bela, e nunca barata. ‘Neighhourhood #1 (Tunnels)’ e ‘The Suburbs’, do homónimo esforço musical lançado ainda este ano, são excelentes exemplos, tal como a universal ‘Crown of Love’ e a adorável ‘Haiti’, interpretada pela mágica e colorida Regine Chassagne, a outra metade da dupla que encabeça esta revolução sonora.
Em palco, estão quase uma dúzia de músicos, que nunca descansam e dão tudo de si, numa despejo de energia incomparável sem nunca se descuidarem tecnicamente. ‘Month of May’ foi um dos momentos que incendiaram por completo o recinto do festival num rodopio frenético sonoro, que quase põe um pézinho no punk, seguida da estrondosa ‘Rebellion (Lies)’, que todos têm na ponta da língua. Este foi, seguramente, um dos momentos da noite e, vindo-se pelo sorriso de orelha a orelha de Win Butler, este não passou despercebido.
Claro que um concerto desta magnitude nunca poderia acabar sem bang e, já no encore, ‘Wake Up’ foi prontamente aplaudida por um público com ânsia de catarse emocional, que atingiu o extremo no tema emblemático dos canadianos. Levantam-se os braços, brada-se aos céus com uma comoção que desassossega e emociona – é este o fenómeno que inunda a Herdade do Cabeço da Flauta e abafa os próprios músicos, é este o abalo delirante que é provocado pelo espírito de um movimento que é maior do que os seus criadores. ‘Sprawl II’ encerra um dos melhores concertos que este festival já viu – para muito agrado de quem tudo suportou para o poder presenciar.
Por fim, uma vez mais, os Arcade Fire provam que já são pesos pesados no panorama musical internacional, mas mais que isso: são uma banda que, além de estilo, têm coração e espírito a transbordar.
16 de Julho de 2011
Foi com concertos como o dos nova-iorquinos The Strokes e Slash que foi encerrada esta 17ª edição do Festival Super Bock Super Rock, na Herdade do Cabeço da Flauta. A segunda edição do festival lisboeta no Meco foi um grande sucesso aparentemente. Apesar de esgotados os bilhetes para a maior parte dos dias o festival conta ainda com algumas deficiências estruturais, tanto a nível do recinto em si, como no acampamento. O pó parece ser uma das maiores queixas, algo a que os organizadores têm de tomar atenção, para não dissuadir os possíveis e futuros festivaleiros que terão reservas em respirar a poeira levantada.
Neste último dia foram os X-Wife, os já muito conhecidos músicos portugueses, que estrearam o palco principal por volta das sete da tarde. Apesar do público ser menor e as condições climatéricas não estarem a favor (tanto em termos de calor como de vento), os portuenses proporcionaram um agradável concerto, repleto de energia e boa-disposição. Junta-se o estilo descontraído dos artistas ao indie rock electrónico e tem-se a receita dos portuenses: temas eficazes como “OntheRadio” e “I Keep On Dancing” conseguiram incitar as massas a abanar as ancas, naquela que foi uma oportunidade de apresentação do novo esforço Infectious Affectional. Considerem-nos convencidos.
Pouco depois, eram os PAUS que faziam furor no palco secundário. A super banda, constituída por nomes como o de Hélio Morais (Linda Martini e If Lucy Fell), Joaquim Albergaria (The Vicious Five) e de Makoto Yagyu (If Lucy Fell), levou os amantes de música por uma viagem tribal e espacial mirabolante ao longo de quase uma hora. Considerado como um dos novos e mais entusiasmantes projectos que se desenrolam em Portugal, os PAUS aliam o inabitual
(tanto na bateria a dobrar como na multiplicidade de influências sonoras) ao empiricamente provado (principalmente os coros) numa comunhão feliz e de inegável qualidade. Ao vivo, mostram uma enorme mestria técnica nos temas do EP É Uma Água – ‘Mudo e Surdo’ é o ponto alto do concerto, sem dúvida - e também nos do disco por lançar em Outubro, que mostram uma vertente ainda mais experimental dos heróis do público português. Um concerto vertiginoso que encheu as medidas.
Novamente no palco principal, era Brandon Flowers que dava ares da sua graça. Sem os The Killers, o músico americano apresentou-se bem disposto e comunicativo na apresentação do seu álbum de estreia, Flamingo, ao público português. Menos chamativo que o trabalho com os restantes membros da banda, os temas do seu álbum de estreia não mostram um grande desvio da sonoridade chave dos The Killers, nem são particularmente originais. No entanto, ‘Jilted Lovers’ e ‘Only The Young’ foram algumas das músicas que mais agitaram os jovens, que os receberam de braços abertos, mas que apenas vibraram nas versões de ‘Mr. Brightside’ e ‘Read My Mind’. Refrões chorudos e pé no electrónico marcam o passo e Brandon Flowers pode, com certeza, ter razões para sorrir com a sua recepção em Portugal a solo.
Já os Junip, no palco secundário, também foram bem recebidos, talvez por um público que ansiava um ambiente mais calmo e uma fuga ao frenesim que caracteriza os festivais de verão. Mais conhecidos pelo seu vocalista, José González, a banda sueca proporcionou um concerto calmo, mas repleto de interesse, naquele que foi o regresso a Portugal desde a actuação no festival Super Bock em Stock, em Dezembro do ano passado.
O receptivo público ouvia com atenção do folk suave, dedilhado em guitarra acústica pelas hábeis mãos de González, claro mestre e maestro dos Junip: mostra-se um tímido e subtil intérprete, mas o sueco sabe quase que hipnotizar os festivaleiros com a sua voz amena, deliciando os ouvidos de quem estava presente. ‘Always’, ‘Rope and Summit’ e ‘Without You’ foram alguns dos temas tocados de Fields(2010), demonstrando uma sonoridade harmoniosa que, não sendo espectacular, é única.
Se os Junip gozaram de um público bastante acolhedor, no palco principal eram os Elbow que se esforçavam por manter os festivaleiros bem despertos. É decerto que os ingleses não criam o rock alternativo mais barulhento, sendo talvez demasiado emotivo e etéreo para reunir um entusiasmo maior do público, mas não se poderá dizer que não têm qualidade.
Vencedores do Mercury Prize pelo álbum SeldomSeen Kid, os Elbow demonstram uma enorme sensibilidade musical na construção de temas belíssimos como ‘LippyKids’, que têm uma complexidade maior do que a que aparentam à primeira vista (daí que cheguem a um rock progressivo, que não o deixa de ser por ser mais moderado). Na apresentação de Build a RocketBoys!, os britânicos mostraram-se excelentes, com uma performance em palco activa e animada, no entanto, a massa de cabeças que já se alojavam perto do palco principal parecia apenas guardar lugar para concertos maiores. É uma pena.
Fomos impossibilitados de assistir ao concerto de Ian Brown, no entanto, permanecemos para testemunhar a presença do mítico Slash, ex-guitarrista dos Guns N’ Roses, no palco português. Rock and roll puro já é de esperar, e foi o que marcou o passo no final do último dia no Meco.
Slash, de cartola na cabeça, continua um inatacável performer ao vivo, deslizando pelo braço da sua guitarra eléctrica como se fosse um próprio membro do seu corpo. A mestria do seu instrumento nunca poderá ser algo que podemos criticar, no entanto, o temas do seu álbum a solo pareciam agradar mais a entusiastas e conhecedores do seu trabalho, permanecendo indiferente para muita gente que assistiam ao artista.
Myles Kennedy emprestou a voz, de forma competente, a temas como ‘Ghost’, ‘Mean Bone’ e ‘Nighttrain’, porém, estes pouco foram capazes de agitar a hoste. O acordar da hipnose (já o cansaço era muito) dos que assistiam só veio com a famosíssima ‘Sweet Child O’ Mine’ e ‘Paradise City’, então sim, entoada pelo recinto e aplaudida como nunca. Velhos êxitos que nunca morrem, por isso pode Slash estar grato.
Messias do indie rock, ídolos de uma geração, chamem-lhe o que quiserem – o fenómeno The Strokes ainda é grande e capaz de atrair um grande público. Os senhores que lançaram uma grande parte do movimento indie, no início do século XXI, apostaram num concerto eficaz, com os melhores momentos da sua carreira, embora tenha pecado por ser curto.
Julian Casablancas e a sua trupe entraram de maneira despreocupada em palco, abrindo de imediato com ‘New York City Cops’, seguindo-se pouco depois por ‘Reptilia’ – e o delírio é universal. Fãs apertam-se, saltam e bradam os versos mais que recordados, tão ansiosos por catarse emocional que é impressionante de ver. Apesar de terem a etiqueta de alternativos, não estão longe do apelidado comercial, com o rock extremamente melódico e harmonioso, repleto de solos, que satisfazem qualquer ouvinte fácil de música.
Sabem que a sua fórmula funciona – basta assistir à sequência ‘Last Nite’, ‘Modern Age’ e ‘Is This It’ para o confirmar, uma vez que, apesar dos ligeiros problemas de som, o público retribui tudo o que lhe é dado, com ânsia de agradar aos seus ídolos. Talvez este culto aos The Strokes tenha sido resultado do pequeno interregno de cinco anos que se seguiu ao lançamento de First Impressions of Earth, em 2006, mas o que é certo é que os fanáticos Strokeanos até o disparo algo ao lado de Angles, lançado neste ano, perdoam. ‘Machu Picchu’ e ‘Under Cover of Darkness’ são belos e agradáveis exemplos deste ligeiro desvio sonoro que deixou a pedir mais, mas que é bem recebido por um público com energia inesgotável.
Ora, se o público brilhou pelo seu apoio incondicional, os performers é que ficaram um pouco a perder. Apesar de comunicativos, o espírito e a quase rebeldia que caracterizava a banda nova-iorquina no início de carreira (e até na passagem por Lisboa, em 2006) parece ter desaparecido, sendo substituído por uma exibição mecânica, embora tecnicamente irrepreensível – Valensi e Hammond, Jr. dedilham as suas guitarras com a mesma pujança de Slash. Já Casablancas passeia pelo palco despreocupado e parece uma sombra de si mesmo – parece estranho quando anteriormente viviam do espírito e da performance ao vivo exuberante e energética.
A lendária ‘Hard to Explain’ antecede a agressiva e energética ‘Juicebox’ e pouco depois é ‘Take It or Leave It’, num fechar explosivo de concerto, mas que não contou com nenhum encore. Os fãs ficam a pedir mais, mas não têm sorte. Fica a memória de uma banda crescida, de um concerto divertido e eficaz, mas também a memória do que já foi.
Reportagem Cut Copy – Lisboa
Mar 24th
Dia 23 de Março, Lisboa, Coliseu – o regresso de uma das bandas mais acarinhadas pelo público português. Depois do concerto do Super Bock Super Rock, não se esperava menos que um espectáculo com “E” grande. Se havia melhor opção para dar as boas vindas à Primavera que um concerto de Cut Copy, por favor elucidem-me.
Eram 22h e as luzes apagaram-se. Não houve banda de abertura, foi-se directo ao assunto. Pouco mais de metade do Coliseu ficou por encher. Melhor!, mais espaço para dançar. A banda entrou em palco e a saudação do público encheu todos os cantinhos da sala. Acabados de lançar o seu mais recente trabalho, “Zonoscope”, há algum tempo que os australianos conquistaram o público português.
O concerto foi considerado pela banda como o primeiro «a sério» em Lisboa, dado que anteriormente só tinham tocado em festivais e na discoteca Lux. Pode dizer-se que as expectativas eram altas para ambas as partes. Nenhuma ficou desiludida, num concerto cujo melhor adjectivo para o descrever só pode ser “contagiante”.
A abrir, “Visions”, imediatamente seguida por “Nobody Lost, Nobody Found”. Problemas técnicos no som à parte, os fãs faziam-se notar – entoavam letras, agitavam os braços no ar. Um “obrigado” em pronúncia quase perfeita demonstrou o apreço do vocalista, Dan Whitford, que dançava e puxava pela audiência de forma irresistível.
Empatia entre os membros é algo que não falta na banda. Contaminante, na verdade. O que se passa em palco salta sobre as grades para o público de forma tão natural que não se avistava uma única pessoa quieta. Foi em temas como “Where I’m Going” ou “Corner of the Sky” que se notou que, apesar de fresco, “Zonoscope” já fez com que muitos se rendessem ao seu conteúdo.
A variedade de sons e as influências post-punk, new wave e synthpop dos anos 80 resultam em temas apelativos e alegres. As luzes são parte de um espectáculo onde os sentidos se fundem e instigam uma experiência cuja principal premissa é a harmonia entre os ingredientes usados.
Uma das mais esperadas, “Lights & Music”, foi recebida com entusiasmo desmedido, mal se ouviam ainda os primeiros acordes. «Go crazy!» era o comando do vocalista, repetido várias vezes ao longo do concerto. E o público obedecia. “Take Me Over”, o novo single, foi entoado sem falhas pelos fãs. A dança continuava, sem fim à vista.
“Saturdays” preparou o público para o que seria o momento da noite – “Hearts on Fire”. Amigos às cavalitas uns dos outros, corpos que dançavam ao som de timbres que deliciosamente invadiam o recinto e os ouvidos. Antes de “Sun God”, Tim Hoey fez questão de dedicar a música a um rapazito cuja «cool mom» (nas palavras do guitarrista) o tinha levado ao concerto. Boa disposição para dar e vender, sorriso nos lábios de cada membro, a felicidade de estarem naquele palco a tocar, não havia nada mais evidente.
Não foi de admirar, por isso, que, após 10 minutos de um fantástico instrumental a terminar o tema, muitos assobiassem quando a banda começou a sair do palco. Já? O encore chegava e o barulho que se fez durante menos de 5 minutos foi quase ensurdecedor.
A banda voltou e imediatamente Tim pegou no microfone e desfez-se em elogios àquela que chamou a sua cidade preferida no mundo. Lisboa foi o «final perfeito para o fim da tour. Obrigada por terem vindo, foram provavelmente o melhor público de toda a tour». Outra medalha, o público português gosta de as conquistar, concerto após concerto.
“Need You Now”, mais que sabida por todos os presentes, assistiu a um mar de mãos no ar enquanto se ouvia o refrão cantado a plenos pulmões pela plateia. Para o fim ficou “Out There on the Ice”, claramente outra das favoritas dos fãs.
O final foi abrupto, com a música a parar de repente e um mar de luz branca inundar o recinto.
Em grande. Não podia ser de outra forma.
Metronomy no Festival Paredes de Coura 2011
Feb 23rd

Ao que o Festivais de Verão apurou junto de fonte próxima da banda, os Metronomy irão actuar no Festival Paredes de Coura 2011 no dia 19 de Agosto.
Os Metronomy são um grupo de musica electrónica, formada por Joseph Mount em 1999. Actualmente a banda é composta por Joseph Mount, Anna Prior, Oscar Cash e Gbenga Adelekan.
O terceiro trabalho dos Metronomy, chega a tempo da apresentação da banda nas margens do tabuão e é lançado em Abril de 2011, intitulado "The English Riviera" que inclui 11 novas faixas, incluido o single já lançado "She Wants".
O Festival Paredes de Coura 2011 realiza-se nos dias 17,18,19 e 20 de Agosto de 2011 em Paredes de Coura, na praia fluvial do rio tabuão. O preço dos bilhetes diários têm o preço de 40 Euros e o Passe para os 4 dias custa 70 Euros.
Reportagem MGMT – Lisboa
Dec 19th
Dia 18 de Dezembro, o Campo Pequeno recebeu os MGMT no seu regresso a Portugal, após dois longos anos e meio. A plateia esgotou e as bancadas estavam bem compostas, enquanto se aguardava a entrada da banda em palco.
Antes deles, os Smith Westerns abriram o palco. Uma banda jovem de Chicago, simpáticos e que canalizam a energia para as músicas que interpretam. Apenas meia hora chegou para mostrar que são uma banda merecedora de atenção.
O relógio marcava uns minutos depois das 22h quando as luzes se apagaram e a exaltação se instalou. Apresentações? Podem ser dispensadas, mas para quem não viu a banda a apresentar o seu álbum “Oracular Spectacular” - eleito pela NME como o melhor de 2008 - no Optimus Alive! de há dois anos (ninguém vos culpa, The National estava a tocar no palco principal), este era um concerto a não perder.
A não perder pelos fãs, por aqueles que os entendem, por todos aqueles que compreendem o segundo álbum, por todos os que sabem que a “Kids” não é tudo na vida dos MGMT e por aqueles que sabem que a “Siberian Breaks” (durante a qual muitos adormeceram, para além de terem saído do concerto a achar que durante esse tempo se tocaram quatro músicas diferentes) é muito mais um espelho do que os MGMT querem alcançar. A “Kids” é genial, sim, mas já lá vamos.
Depois de um cumprimento por parte de Andrew, “The Youth” fez as honras. Andrew e Ben, a juventude em pessoa, fazem música para graúdos. E não falo de idades. Ainda que os seus fãs sejam maioritariamente jovens, o público perfeito para temas como “Time to Pretend” e “Electric Feel”, foram temas como “The Handshake” ou mesmo “The Youth” (ambos ainda do primeiro álbum) que provaram no palco secundário do Optimus Alive! que têm muitos mais que se lhes diga do que uma mera combinação de notas que fica presa no ouvido. “Congratulations” assumiu por completo o rumo que já havia sido criado em “Oracular Spectacular” mas feito de uma maneira mais directa. E a verdade é que as actuações de MGMT ao vivo complementam todo o trabalho da banda ao criar cada álbum. Falo de tudo, desde luzes a vídeos, às interpretações em si e à maneira como as mesmas são feitas.
E assim foi mais uma vez. “The Youth” foi fantástica e no fim do tema, já Andrew tinha nas mãos uma bandeira portuguesa. “Time to Pretend” seguiu logo a seguir. Escusado é dizer que o público delirou, afinal de contas era um dos momentos mais esperados por todos. “Song for Dan Treacy” (sobre um cantor inglês dos anos 90 que serviu pena na prisão) manteve todos a dançar, antes de outro tema antigo: “Weekend Wars”. Mesmo sendo do álbum anterior, não arrebatou o entusiasmo que merecia, ainda para mais ao vivo, onde ganha – ainda mais – vida!
Andrew, tímido (ou absorvido?) tocou ferrinhos e pegou numa guitarra acústica para interpretar “I Found a Whistle”. A música fala disso mesmo: de um apito. Um apito que a certo ponto rima com pistola, numa letra que complementa a composição e vice-versa. A mistura dos mais diversos sons e instrumentos sempre teve um papel importante no trabalho dos MGMT. No novo álbum, tal aspecto foi ainda mais explorado e “I Found a Whistle”, por mais subtil que possa ser, é uma prova disso mesmo. No clímax da música, o enorme ecrã atrás da banda ganhou vida e vídeos com cores e jogos de ilusões e formas inundaram o recinto.
Propícia a mais delírios, “Flash Delirium” entra em cena. Sendo o tema que é – fantástico, digo –, seria de esperar que o público se deixasse levar mais. Mas para lá das primeiras filas, o entusiasmo não transparecia tanto. Continuando o sistema de alternar entre o álbum novo e o seu antecessor, começaram-se a ouvir os primeiros acordes de “Of Moons, Birds and Monsters”. E a quebrar o ciclo, veio então “Electric Feel”. O público ficou, sem dúvida, eléctrico (perdoem o trocadilho).
De máscara de Rudolfo, a Rena, o teclista desejou a todos um Natal Feliz. Banda de poucas palavras, todos os seus membros sabem que o espectáculo resulta muito melhor da maneira que é executado. Directo ao que interessa: a música. Que continuou com “It’s Working”, tema de abertura de “Congratulations”, mesmo antes de uma surpresa: “Destrokk”, um dos primeiros temas que os MGMT criaram. Data de 2005, tirado do EP “Time to Pretend”. As mãos no ar contavam-se pelos dedos, bem como as pessoas que conheciam o tema. Contudo, pelo final da interpretação, o tema já reunia um número de fãs que aumentara exponencialmente em 3 minutos.
No álbum, “Siberian Breaks” tem 12 minutos. Tocada ao vivo ronda o mesmo tempo. Um tema complexo, uma autêntica viagem por entre sons, instrumentos e combinações. Ao ouvir “Congratulations”, torna-se difícil distinguir o princípio e fim dos vários temas. E a beleza do álbum está nisso mesmo: no sucesso que foi ao ser criado como um todo, uma evolução, uma jornada. Assim, torna-se mais difícil ter-se temas tão independentes como “Time to Pretend”. Por isso não foi de admirar que metade do Campo Pequeno estivesse estática ao fim de 5 minutos, depois de terem pensado que a música já acabara pelo menos duas vezes. Mas não se preocupem, caros espectadores, pois eis que chega o momento alto da noite, pelo qual todos esperavam.
“Kids” não consegue entrar subtilmente numa actuação, e nem é isso que se pretende. A música é fenomenal de tão simples que é. Ao vivo ou em casa, é impossível ficar indiferente, digam o que disseram. Não tardará muito a que se torne num autêntico hino, ao lado de “Seven Nation Army” dos White Stripes ou “We Are the Champions” dos Queen. O desagrado da banda em relação ao público ir a concertos na mera esperança de a ver ao vivo, muito mais que às outras (sobretudo depois da recepção do novo álbum, que dividiu muitas opiniões) é no entanto evidente: já abandonaram um recinto em Londres sem ter tocado o tema, devido à falta de entusiasmo ou sequer interesse demonstrado pelos “fãs”.
Andrew e Ben a postos, tal como haviam feito no Optimus Alive!, cantavam lado a lado. Andrew limpou inclusive suor da testa do teclista que agora fascinava de guitarra eléctrica em mãos. O recinto saltava como se não houvesse amanhã, como se todos ali fossem crianças de novo, por 5 minutos. E isso não sabe tão bem?
Mas o que soube ainda melhor foi “Brian Eno” ter-se-lhe seguido. A homenagem da banda ao artista – que outra palavra usar para reunir tudo o que Eno é? – não só evidencia as suas admirações como desejos íntimos: «We're always one step behind him, he's Brian Eno. Brian Eno!». Antes dos últimos acordes, Andrew agradeceu a todos por terem vindo e tornado o espectáculo óptimo. A música terminou e a banda saiu.
Poucos minutos depois, estavam de volta. Andrew voltou a agradecer e elogiar o público por cantar tão bem. Isto porque durante o encore, só se ouviu… adivinharam: “Kids”! Com mais duas músicas para encher o ouvido, “The Handshake” foi a primeira. Palavras para quê? Os MGMT sabem o que fazem quando entram num estúdio, quando pisam um palco, quando tocam os instrumentos e quanto nos deliciam durante 10 minutos seguidos com instrumentais de mestre.
Para o fim, haveria melhor opção que “Congratulations”? Claro que não. A palavra era entoada pelos fãs de forma intensa, num agradecimento por mais um concerto assombroso. De sorriso nos lábios, a banda abandonou o palco então de vez, depois da dose de alucinação (no bom sentido) que havia proporcionado. Não é impossível de todo que alguém tenha passado na rua e tenha visto o Campo Pequeno a planar no ar sob um céu pintado com as cores do arco-íris, onde golfinhos com asas saltavam por entre nuvens que choviam gotas brilhantes multicolores.
Em 2008, os MGMT fizeram o palco secundário do Optimus Alive! crescer a olhos vistos perante um recinto mais que lotado.
Em 2010, levaram o Campo Pequeno numa viagem que poucos saberão apreciar como ela merece, mas decerto nunca irão esquecer. A quem conseguiu perceber o que estavam a presenciar, resta-nos esperar que a próxima vinda não demore tanto tempo outra vez.
Passatempo MADE.OUT 3D
Jun 20th
A primeira festa totalmente em 3D chega a Portugal no próximo dia 3 de Julho e nós temos convites duplos para te oferecer.
A decorrer pela quarta vez este ano é apostando na tecnologia 3D que a MADE.OUT promete encher os jardins do Your Hotel & SPA em Alcobaça. Um complexo composto por uma área de 2.600 m2, duas piscinas e três zonas lounge, conta este ano com uma parceria total com a Heineken, entre outras marcas, capaz de albergar até 5000 pessoas.
Com projecções interactivas do som a 3D, completamente inéditas para o público Português, as pessoas terão a sensação de serem tocadas por este. A MADE.OUT tem o privilégio de receber um espectáculo inovador, acompanhando o progresso das visualizações tridimensionais, que até há relativamente pouco tempo não tinha a reputação conceituada que tem hoje no mundo da música. Numa festa onde os óculos 3D são indispensáveis (incluídos no bilhete), o ritmo da música será não só ouvido, como visto e sentido, criando assim uma noite de cariz tridimensional que reúne música, tecnologia e multimédia Uma experiência audiovisual única e pioneira que conta com a colaboração dos Londrinos 3D Disco, internacionalmente famosos pelas suas actuações.
Pela noite fora a MADE.OUT 3D contará ainda com a presença dos nacionalmente conceituados DJ Riot (Buraka Som Sistema), Damn Clown (FNYHoW), Loto (Dj Set) e Tha Bloody Bastards, que prometem dar à festa diferentes estilos musicais, do comercial ao electro.
Para mais informações visita o site: http://www.made-out.com
Vé quem foram os vencedores aqui
Reportagem Panda Bear
Feb 14th
Na noite de ontem, e pela segunda vez consecutiva de casa cheia, o recém-lisboeta Noah Lennox veio apresentar expectativas para o seu quarto e mais recente álbum, "Tomboy", que promete estrear em Setembro deste ano.
Panda Bear aparece num registo um pouco mais agressivo, “noisy” e ligado à guitarra. O reverb na voz não deixa de fazer lembrar Brian Wilson e os Beach Boys e é de notar que este álbum tem uma ligação mais intrínseca com o último trabalho de Animal Collective, porém, menos jovial e mais ultrajante.
Numa construção musical mais intricada, densa e texturada, é de apontar o uso recorrente e repetitivo de loops e distorção.
Quase sem tempo para pausas e palmas, e apesar das já esperadas saudades de Person Pitch, o público pareceu saudar de forma atenta este novo trabalho e a presença ímpar e recatada de Lennox
. O trabalho de vídeo de Danny Perez que acompanhava o artista ajudava à experiência envolvente, que parece ter corrido de forma mais fluida e com um melhor sonoridade do que o dia anterior.
Reportagem Fruit Bats + Vetiver @ Passos Manuel
Dec 2nd
No passado dia 1 de Dezembro, o Passos Manuel abrigou mais uma noite de boa musica internacional, recebendo de braços abertos os Vetiver e os Fruit Bats.
Foi por volta das 22h30 que os americanos Fruit Bats subiram ao palco do antigo cinema. Oriundos de Chicago e portadores de um folk rock extremamente adocicado, lançaram-se a cerca de 40 minutos dedicados à apresentação do seu mais recente album, intitulado "The Ruminant Band".
Liderados por Eric Johnson (membro dos The Shins), os Fruit Bats deram um concerto irrepreensível e forte como seria de esperar.
Em seguida, por volta das 23h30, os Californianos, Vetiver começaram a sua actuação. O seu último trabalho, o aclamado Tight Knit, serviu de desculpa para grande parte do concerto, contudo ainda houve tempo por um passeio equilibrado por todo o reportório, assim como para uma cover de Grateful Dead e um novo single.
Após cerca de uma hora de folk que fez sentir a falta de uma fogueira e mais proximidade banda-publico, os Vetiver abandonaram o palco sem realizarem encore.
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