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Reportagem Within Temptation no Coliseu de Lisboa
Oct 15th
Noite negra e esgotada, no regresso do grupo de culto (ou talvez seja o género em si que é um culto por cá) ao país, após uma passagem pelo Porto. Muitas t-shirts negras, algumas quarentonas com rendas nos braços, piercings com mais de 10 centímetros (sem exageros), e um público com grande parte dele numa faixa etária acima dos 30 ou até dos 40, mostrando bem o tipo de público devoto que os Within Temptation têm por cá. Camarotes cheios, plateia cheia, público até no último andar do coliseu… já há algum tempo que os alfacinhas não enchiam assim a sua sala.
E a noite começou, exactamente, com gente de cá em palco. Os Kandia, que abriram a noite, conseguiram conquistar graças a um rock forte e energético, de músicas longas e bem pensadas. Foi uma escolha ideal para a noite, já que se encaixam na perfeição dentro do género da banda principal, e tiveram portanto à sua frente o público ideal. Uma vocalista com genuíno prazer no que fazia, um óptimo guitarrista (a guitarra é, aliás, o cerne de tudo), e um baterista e um baixista em sintonia perfeita. Uma primeira parte bem dada, que serviu na perfeição para aquecer as hostes. No futuro, talvez venhamos a ouvir falar mais deles.
Meia-hora depois, começava o espectáculo dos Within Temptation. E espectáculo é, de facto, a palavra certa. Um palco de dois andares, um ecrã gigante (de excelente qualidade) que ia projectando vídeos em cada música, um jogo de luz impressionante… um belo jogo audiovisual, bem pensado e executado, dado por uma banda que obviamente se preocupa com a imagem que projecta.
Preocupa-se, aliás, talvez demais. Começar o concerto com uma curta-metragem talvez não tenha sido a melhor ideia, tal como não o foi mostrar outra mais à frente. Percebe-se que queiram enquadrar e dar a mostrar o suposto conceito por trás do último álbum que agora apresentavam, The Unforgiving (do qual tocaram praticamente tudo), mas pedia-se mais subtileza. Afinal de contas, aquilo acabou por se reflectir como um golpe no ritmo do concerto, e, simplesmente, não acrescentou rigorosamente nada. E para quê tantos vídeos em cada canção, e todos eles por vezes tão pensados e, ao mesmo tempo, tão aleatórios? Porque é que haviam javalis em CGI que pareciam saídos do World of Warcraft?
Porque é que aquele homem estava a lutar no ecrã com outro? E como é que de repente ele fica sem t-shirt e começa a chover (isso deve ter sido ideia da Sharon)? Todo o aparato visual destoou por vezes, distraindo até daquilo que era o que realmente interessava: a música. Não há problema nenhum em fazer um espectáculo assim, claro. Mas faltou uma fusão entre o que se ouvia e o que se via (algo, por exemplo, tão bem conseguido por Sufjan Stevens, que tocou naquela mesma sala este ano).
Claro que esta acabou por ser uma falha menor, que se ia revelando apenas em certos momentos (a sério, aqueles javalis…) no concerto de uma banda que, efectivamente, talvez se preocupe demasiado com mitologia celta/druida e afins (mas, lá está, deve ser também isso que os fãs adoram neles). O concerto, francamente bom do início ao fim, raramente deixou de ser imponente e impressionante, não tanto pelo aparato já mencionado, mas antes pelas canções em si, tão potentes e tão bem tocadas, sempre apoiadas pela bela voz de uma óptima vocalista. O último disco resulta francamente bem ao vivo, tal como o início com Shot in the Dark demonstrou logo. Energia pura, sob a forma de acima de tudo dois bons guitarristas, que preenchem todo o espaço do coliseu com ondas de ruído.
O alinhamento concentrou-se, portanto, maioritariamente no último disco, mas não faltaram também os êxitos do passado. "Ice Queen" foi recebida de braços no ar (muitos deles, mas mesmo muito, com telemóveis ou máquinas fotográficas na mão), tal como "The Howling", a apoteótica "Our Solemn Hour" (espectacular ao vivo) ou, claro, a inevitável "Memories" (momento lindíssimo). Sentia-se no ar a devoção pura de um público que estava ali a cantar as letras a altos berros, com os seus ídolos em palco. A banda parecia ela própria satisfeita, mesmo não estando particularmente comunicativa. Os sorrisos eram constantes, raramente se afastavam da berma do palco, e foi em particular nos encores, tocados com tanta diversão quanto alma, que se viu bem o quanto gostavam de ali estar. O público, esse, mostrou-se quase religioso do início ao fim.
Tinha bastado Memories, a terminar o corpo principal do alinhamento, para a noite estar ganha, mas os dois encores asseguraram-se de que a qualidade se mantinha lá em cima. "Deceiver of Fools", a fabulosa e muito aplaudida e cantada "Mother Earth", compuseram o primeiro, tendo ficado Stairway to the Skies (a última do mais recente disco) tido a honra de encerrar na perfeição uma noite que ficará provavelmente marcada na memória dos milhares de fãs que encheram o coliseu. No final, a banda faz uma vénia, e desce até do palco para cumprimentar os fãs; algo raro, hoje em dia.
Para os grandes fãs, deverá ter sido uma noite memorável, que irão relembrar por muito, muito tempo; para os curiosos (como eu), foi sem dúvida um belo concerto.
Há cultos que não se percebem, bandas que ao vivo são incompreensivelmente adoradas e aplaudidas.
Os Within Temptation, felizmente, defendem ao vivo muito bem o seu repertório, e dão um concerto impressionante e (e este é talvez o maior elogio) consistente, onde os bons momentos se vão sucedendo. Podemos não partilhar o culto… mas com concertos assim, este percebe-se.
Reportagem Avenged Sevenfold no Campo Pequeno
Jun 24th
Passaram 4 anos desde que os Avenged Sevenfold pisaram território nacional, estávamos então no Super Bock Super Rock, ainda no Parque Tejo antes de o festival mudar de casa, e com eles traziam o na altura fresco disco homónimo.
Desta vez, chegam ao Campo Pequeno com "Nightmare" às costas, e com uma formação diferente da que presenciámos há alguns anos atrás, pelas piores razões. Depois da morte do baterista "The Rev", os A7X continuaram a pisar a estrada com a ajuda de Mike Portnoy (dos Dream Theater) até que um novo baterista fosse escolhido – Arin Ilejay, dos Confide.
Os Sevendust cancelaram pela segunda vez (da primeira vinham abrir para os Disturbed) e foi aos portugueses Switchtense a quem couberam as honras de abertura. Acabados de chegar do GSM!Fest em Barcelos e com o Resurrection no horizonte, a banda da Moita, talvez das mais míticas no hardcore, contou com algumas mãos cheias de fãs que admitiram decidir ir ao concerto por sua causa. Também de disco homónimo na mão, apresentaram-no a uma sala mais composta para o que é habitual numa banda de abertura – sinal mais que bom – fazendo várias referências às boas bandas nacionais às quais damos tão pouco valor, nomeadamente os colegas For the Glory. Uma primeira parte bastante capaz, que puxou desde início ao mosh e aos encontrões.
Depois de vermos fotos do concerto do Ricky Martin, não sabemos ao certo quem terá ganho em matéria de cenários. O dos Avenged Sevenfold esteve montado já durante Switchtense, no entanto foi à entrada da banda principal que atingiu o seu ar mais teatral: três portões de cemitério onde se podia ler "A7X" e alguns efeitos de pirotecnia foram mais que suficientes para completar uma noite para muitos inesquecível, onde o último "Nightmare" predominou.
Entraram em palco com a atitude que lhes conhecemos e deu-se início a Nightmare, música que inicía o álbum de mesmo nome. Houve quem chorasse, houve que gritasse do fundo dos pulmões, mas durante Critical Acclaim o Campo Pequeno uniu forças para fazer com que M. Shadows não se ouvisse a si mesmo, como mais tarde veio a afirmar. Depois de uma paragem para agradecer aos fãs e relembrar o concerto no Super Bock Super Rock onde partilharam palco com os Slayer, pensasse quem quisesse que o ar tenro de Arin Ilejay o impediria de fazer estragos, durante Welcome to the Family (quase dedicada a ele mesmo), as provas ficaram dadas de que os dois bombos pertencentes a The Rev estão a ser bem usados.
Os dois guitarristas passeavam-se pelo palco, numa batalha de riffs um contra o outro, de onde Synyster Gates saía com um ar vitorioso e descontraído, ao mesmo tempo que atingia picos ridículos de agudos e volume, durante Almost Easy e Buried Alive, iluminados apenas pelo fogo que saía em tempo acertado das ombreiras dos portões.
Chegado o momento das dedicatórias, Vengeance puxou pela guitarra acústica e foi So Far Away a escolhida. Com comoção na voz, Shadows dedica a música ao ex-baterista e segue convenientemente para Afterlife, agradecendo repetidamente aos fãs pelo apoio e por terem esgotado a sala para os ver.
God Hates Us foi a última do novo álbum a ser mostrada, antes do encore. A matemacidade dos guitarristas foi louvável, continuavam a passear-se os dois pelo ambiente sinistro, bem como o baixista Johnny Christ e claro, o incontornável vocalista.
Uma escolha menos esperada foi A Little Piece of Heaven, onde Shadows teve de ser suportado por gravações da sua própria voz e do falecido baterista. No meio de uma óptima setlist, foi talvez a que deixou cair mais os ânimos de um público até agora em êxtase. Para a despedida, prometeram voltar "again, and again, and again", Bat Country reacendeu os fogos - literalmente - e os moshpits re-formavam-se.
Evidentemente, ninguém arredou pé da praça de touros, até que os californianos voltassem. O primeiro a regressar foi Zacky Vengeance, pousando o pé num dos estrados e iniciando por duas vezes Unholy Confessions, que só arrancou à terceira, com Arin no seu posto. Teria sido um final de noite perfeito, mas decidiram regressar para deixar cair a última gota de caos, pedindo o maior circle pit possível, enquando Gates dava o mote com riffs de Crossroads.
De tão grande que era, tornou-se também no mais lento, já levados pelo cansaço de uma noite exaustiva.
Save Me foi definitivamente o fim de uma noite já longa, de calor e suor (apesar de a cobertura da sala estar aberta), com o baixo a pesar bastante nos ouvidos.
A manifesta vontade do vocalista de voltar a Portugal, dizendo que somos o melhor público para quem já tocou - nunca iremos saber se é exagero ou não - dá-nos à esperança de mais um regresso.
Uma coisa é certa, o Campo Pequeno esteve certamente à altura de uma noite de peso.
Reportagem Shout Out Louds no Santiago Alquimista
Apr 9th
Concerto de uma noite de Verão
Foi numa noite de temperaturas altas (como têm sido todas) e céu limpo que os Shout Out Louds actuaram para um Santiago Alquimista minimamente composto (a cerca de meio gás), mostrando ao vivo aquilo que já mostravam em disco: nada de particularmente original ou impressionante, mas competência e energia mais que suficientes para fazer qualquer um esboçar um sorriso e abanar o corpo.
O concerto não foi talvez tão coeso como poderia ter sido (algumas músicas mais calmas quebraram o ritmo, perdendo a atenção do público), nem nunca se aproximou do memorável ou genial, mas nem todos os concertos têm de chegar a tal. Mais que competentes e com as suas canções meio pop meio rock, a banda sueca fez uma bonita e agradável festa, criando sorrisos facilmente visíveis no público quase sempre dançante (que teve, por si só, a coesão que faltou ao concerto: quando era para dançar, dançavam todos; quando tudo ficava mais calmo e a atenção se perdia, era assim com todos os presentes) e um ambiente de celebração. Não será certamente um dos concertos do ano nem ficará por muito na memória dos presentes, mas dificilmente alguém se terá arrependido de ter ido.
Desde logo tiveram um bom início, com 199”, primeira faixa de “Work”, o seu mais recente disco que foi lançado no ano passado, a proporcionar um arranque energético e quase eufórico. Aquele teclado funciona lindamente com aquelas guitarras, e aquele baixo funciona lindamente com aquela bateria; não são músicos geniais, mas sabem bem o que fazem. O quinteto funciona bem em palco, interpretando de forma sempre competente e sem falhas as canções que se em disco dão vontade de abanar a cabeça, ao vivo dão vontade de abanar tudo o resto.
Bastou o início para ver todo o público a balançar-se, num ambiente de agradável festa íntima e pessoal que viria a pautar todo o espectáculo. O alinhamento passou pelos três álbuns da banda e logo à segunda faixa veio South America, canção de Our Ill Wills, segundo álbum da banda lançado em 2007, que manteve o bom ritmo. Com a canção seguinte, a bela Very Loud, voltaram ainda mais atrás, ao longínquo ano de 2003, quando saiu o disco que os apresentou ao mundo: Howl Howl Gaff Gaff. Foram alternando constantemente entre discos, tocando menos do primeiro (como seria de esperar) e mais dos últimos dois, sucessos que os colocaram nos palcos um pouco por todo o mundo.
Algumas canções não resultaram tão bem, como por exemplo Your Parents Living Room, menos energética e mais melódica; mas mesmo os momentos menores foram bons, e mesmo com o público em alguns momentos a dedicar-se demasiado à conversa e não tanto à banda em cima do palco, nunca foram visíveis bocejos. Foi uma festa com os seus altos e baixos, em que os altos nunca roçaram o memorável e os baixos nunca se aproximaram do desperdício ou desilusão. O momento da noite foi, claro, aquele que se esperava: Tonight I Have To Leave It, aquela canção que em 2008 (salvo erro) tanto passou pelas nossas rádios e televisões graças a uma campanha da Optimus. 2008 não foi assim há tanto tempo, e isso foi visível: bastaram os primeiros acordes para o público ficar eufórico, passando esse sentimento para a própria banda, com o vocalista a dirigir-se ao público com o microfone no ar para que este cantasse “Give love!”, aquela frase que por cá tanto sucesso fez.
E, de facto, maior amor que aquele não se sentiu durante o resto da noite, que nunca conseguiu voltar a igualar aquela energia e comunhão banda-público que se viu à sétima canção, ia o alinhamento a meio. Talvez não seja a melhor música deles, mas é sem dúvida a que mais assente está nos nossos ouvidos e que, por isso mesmo, mais nos entusiasmou (a nós e aos estrangeiros de pele branca e cabelos louros presentes no público…).
Perto do final veio um belíssimo momento que só poderia resultar tão bem cá: You Are Dreaming, onde se canta “Where were you when we called the police? Were you ready to go home and hard to please? But no, you were in Portugal. So don’t go back to Stockholm no more”. O público conhecia a música, gostou de ver nela o seu país, e foi um momento simplesmente bonito, não particularmente energético nem dançável, mas apenas de comunhão e de significado. A própria banda parecia mais que contente por a tocar cá.
Não tardou muito após essa a saírem do palco para depois voltarem com um encore de duas músicas: Impossible e Walls. A primeira foi por si sí um dos momentos da noite, vertiginosa e de ritmo energético e constante, e a segunda não ficou muito atrás, tocada com todo o público naquele degrau antes do palco, aos saltos em pleno estado de festa. Belo momento, que terminou o concerto da melhor forma possível, após perto de hora-e-meia de boa música, sempre em ambiente de agradável festa.
Os Shout Out Louds vieram ao Santiago Alquimista e deram uma bela festa que quase nos fez acreditar que o Verão chegou mais cedo. Não chegou, mas fez uma rápida passagem por cá na noite passada.
Pelo meio do encore, a banda inseriu o refrão “Go back to Portugal!”, cantado pelo público com o vocalista de microfone no ar mais uma vez. No final, nós ficámos, mas eles voltaram para Estocolmo, levando o Verão e a festa com eles. Resta agora esperar que regressem e que tragam o Verão com eles. Quem foi desta vez certamente não se terá arrependido.
Há concertos assim: com espírito de Verão, de férias, de relaxamento e diversão. Não marcará certamente nenhum dos presentes, nem será um dos melhores do ano, mas há concertos que não precisam de ser nem uma coisa nem outra.






