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Reportagem Vodafone Mexefest 2011
Dec 5th
Este ano, o festival que conhecíamos como Super Bock em Stock voltou sob o nome de Vodafone Mexefest, resultado de alterações de patrocínios. O conceito, esse, manteve-se: 40 bandas em 2 dias, espalhadas por vários palcos. Já se conhece bem a correria pela Avenida da Liberdade, de sítio em sítio, prioridades bem definidas ou é impossível ver-se o que se quer. Para ajudar à sobreposição de bandas e diferentes localizações, o festival esgotou.
2 de Dezembro:
A fila que se viu para entrar em James Blake era, no mínimo, ridícula. Sim, há outras bandas para ver, mas é possível ver-se um pouco de todas e pagar o tal «euro por artista» em vez de se ver apenas meia dúzia. Coisas boas: a ponte pedonal sobre a Avenida da Liberdade que evitava esperas nos semáforos, castanhas de oferta em frente ao Tivoli e carrinhas de transporte de espectadores pela avenida (alguns deles com direito a concertos no Vodafone Bus), a ajudar a combater uma noite fria, que não demoveu os lisboetas de irem, neste primeiro dia de festival, ver e ouvir Handsome Furs, John T. Pearson, PAUS, Fanfarlo e S.C.U.M. entre tantos outros.
Asterisco Cardinal Bomba Caveira foram os escolhidos para abrir o cartaz e para iniciar a primeira noite de espectáculos, actuando na sala 2 do São Jorge. Não foram recebidos por uma grande audiência, talvez por ainda ser cedo, no entanto, não deixaram de entretê-la com alguns temas do EP homónimo de estreia com Salão Paroquial, Leões e Tigres e Passeio de Bicicleta. Dizem gostar de dançar e as influências tradicionais da música portuguesa são notáveis originando assim canções rápidas de adolescentes que sofreram com o amor, escola, borbulhas e salões paroquiais.
Quase ao mesmo tempo, a simpática Luísa Sobral apresentava o seu The Cherry on My Cake, na Igreja de São Luís dos Franceses.
Julie & the Carjackers foram os responsáveis pela abertura do terraço do Hotel Tivoli. A banda soube cativar o público com a sua simpatia, à-vontade e músicas que se encaixaram na perfeição para dar ainda início a um desfile de bandas. Um concerto que se esperava bom e acabou por ser óptimo. A energia dos músicos em palco era contagiosa e cada um sabia bem o que fazia, quer fosse o guitarrista que parecia estar no seu mundo de acordes ou o baixista lá atrás cujo som passava tudo menos despercebido.
Os coros femininos aquecem os temas, que remetem para influências de Bossa Nova. Apesar de cordas partidas e algum pânico por parte do vocalista a dada altura, o concerto decorreu na perfeição, com uma setlist bem pensada e cativante que incluiu Mr Williams, Chain on My Swing (também foram assoberbados pelo espírito natalício com este tema?) e a última e fabulosa Wait by the Telephone.
A Sociedade de Geografia de Lisboa serviu de pretexto para a actuação de Josh T. Pearson pelas 21h15, concerto que prometia grandes enchentes. Espaço que habitualmente não recebe concertos e que depois de três lances de escadas a subir nos levavam para uma sala centenária, com escadarias e varandins de ferro e cortinas vermelhas que dispersavam por momentos a atenção do palco da personagem barbuda e estimada de Pearson, um contador de histórias de melodias sofridas a cada nota e verso. Com um sentido de humor notório, o músico texano embalou os presentes com temas dignos de silêncio como Sweetheart I Ain’t Your Christ.
Rumamos, então, em direcção a Eleanor Friedberger, já atrasados e a falhar a actuação de Bebe, por causa da fila para os dois elevadores do Hotel (e as escadas?). Na belíssima casa do Alentejo, lá estava ela. Metade dos Fiery Furnaces, desta em nome próprio com um trio de rapazes de cabelo encaracolado. A voz é inconfundível e os temas também. Ouvia-se Heaven ainda antes de entrarmos. A sala, a transbordar (vão perceber que isto foi recorrente em todos os locais durante todo o festival), vibrava ao som dos temas de Last Summer, o primeiro álbum a solo da cantora. Estava a ser um bom concerto, mas era tempo de Handsome Furs no Tivoli. Subimos a avenida de novo e entrámos numa sala que se ia enchendo. Para ver o duo/casal de Montreal, Lisboa preferiu sentar-se, mas às primeiras notas já se encontrava de pé a dançar aos sons intensos de When I Get Back.
A pessoa mais energética da sala era, de longe, Alexei Perry, nas teclas e descalça. All We Want Baby is Everything seguiu-se e os ânimos continuaram ao rubro. O vocalista Dan Boeckner revelou estar contente por estar de volta enquanto falava sobre os temas e aquilo em que se baseavam. Serve the People, para a polícia, mas foi o What About Us o tema mais esperado.
Enquanto Capitão Fausto e You Can’t Win, Charlie Brown, dois projectos bem nacionais e em emergência neste ano, actuavam nas respectivas salas, na sala 2 do São Jorge, os londrinos S.C.U.M davam início a um concerto influente do post-punk e garage rock onde as influências de The Horrors ou Bauhaus não foram postas de parte.
Temas que oscilavam entre a voz depressiva de Thomas Cohen e um psicadelismo luminoso, com distorções de guitarras a puxar para o noise foram o suficiente para encher a sala e envolver os presentes num ambiente energético e tenebroso onde diferentes estados de espírito são impressos nas composições cavernosas. Com temas do EP Amber Hands e do álbum Again Into Eyes, S.C.U.M seduziram o público num concerto arrebatador onde ficou claro e registado o protagonismo que têm vindo a ganhar por todos como uma banda a seguir, sem dúvida.
Curiosidade pela explosão na internet da celebração universal ‘do coração não é tão simples quanto pensa, nele cabe o que não cabe na despensa’ passamos pela ilustre sala da Casa do Alentejo para conhecermos a Oração, d’A Banda Mais Bonita da Cidade que cantou e encantou milhares de internautas. Entre a música tradicional brasileira e baladas rock, os temas tocados são feitos de histórias ternurentas capazes de esboçar sorrisos na multidão.
Fanfarlo já começava no S. Jorge. A sala encheu rapidamente para ver a banda de Londres, que chegou tímida com a sua panóplia de instrumentos. Melhor e com mais personalidade ao vivo que em estúdio (lembra Beirut demais, por vezes), a banda exibiu os seus dotes no saxofone e no trompete, entre tantos outros, em temas como Replicate ou I’m a Pilot. O público apreciou mas não saiu totalmente convencido pela tímida banda. Nem com a bela “Luna” lá foi. Mas o esforço valeu e em relação ao álbum foi uma boa surpresa.
No Tivoli de novo para uma breve passagem, assistia-se aos canadianos Junior Boys e à sua música electrónica. O público estava mais que cativado e continuava a entrar gente.
A caminho do metro dos Restauradores, e já sem tempo para nos estrearmos no Cabaret Maxime, reaberto para os Spank Rock, revelou-se uma aventura encontrar o local onde os PAUS iriam tocar. Vários grupos de pessoas estavam com o problema comum de saltar de entrada em entrada (são 5, no total) sem conseguir encontrar a correcta para o concerto. Por fim, no sítio certo, viu-se uma enchente de gente rumo à música do quarteto português. Uma vez lá em baixo, o pensamento era comum: pior sítio de sempre para um concerto. Na verdade, o pensamento mais comum deve ter sido: os Blood Red Shoes vão tocar aqui?! Mas isso era só no dia seguinte, uma preocupação de cada vez.
No meio da multidão, amaldiçoava a minha altura quando percebi que o problema de não ver o palco era partilhado por todos os presentes a partir da… bom, da terceira fila, provavelmente. O palco não podia estar mais alto de qualquer maneira ou os músicos tocavam com a cabeça no tecto. Por isso não vos posso dizer como eram as t-shirts especiais deles mencionadas pelo Hélio. Posso dizer-vos que foi um belo concerto e que até pediram às filas da frente que se sentassem um bocadinho durante Deixa-me Ser e apenas levantar quando o Hélio pedisse. Correu bem. Malhão, Mudo e Surdo e Tronco Nu («dedicada ao Malato») foram alguns dos temas que por ali passaram. O pedido foi de Hélio - «ajudem-nos esta noite» - e assim foi. Vissem o palco ou não, todos ouviam a música e foi essa que deslumbrou todos os presentes.
Finda um noite cansativa, a recuperação para o dia seguinte era mais que necessária.
3 de Dezembro:
Mais uma noite de concertos na Avenida com o Vodafone Mexefest. Neste segundo dia, assim como no anterior, nada demoveu os festivaleiros de se deslocarem livremente para verem nomes como Filho da Mãe, EMA, Oh Land, Toro y Moi, Blood Red Shoes e o sempre procurado James Blake.
Desta vez começamos a viagem na Igreja S. Luís dos Franceses, pelas 20h30 com a actuação do Coro Africano, constituído por 25 pessoas com uma extensa variedade de cânticos e dialectos aliados a ritmos tradicionais africanos. Capazes de se adaptarem ao ambiente e à acústica da Igreja, o Coro Africano foi uma surpresa agradável para os presentes que pareciam entretidos.
No segundo e último dia, Filho da Mãe fazia as honras na Sociedade Geográfica de Lisboa. A sala, já sabíamos, era linda, e digna de Palácio, o álbum de estréia de Rui Carvalho, membro dos If Lucy Fell ou I Had Plans. Tanto que uma senhora foi receber o público com um discurso de orgulho por terem recebido alguns concertos do festival naquele local e pedir para que o barulho durante o concerto fosse reduzido ao mínimo. Apesar disso, houve palmas para Rui Carvalho e a sua guitarra. Devido ao atraso no concerto, apenas vimos o primeiro tema e o segundo, Eusébio no Deserto.
Ali ao lado começava Old Jerusalem que também sofreu um pequeno atraso. A banda portuguesa mostrou-se contente por tocar na Igreja de S. Luis dos Franceses e falou sobre os temas que ia tocando, como Tyndale and Augustines, sobre William Tyndale, o primeiro homem a traduzir a Bíblia para inglês, o que lhe causou alguns “problemas”. O tema foi referido pela banda como «político». Saímos a meio do segundo tema, rumo ao Teatro Tivoli que se preparava para receber os portugueses Dead Combo.
O duo entrou num palco decorado como a banda nos tem vindo a habituar: a lâmpada solitária por cima das cabeças dos artistas balouçava amplamente depois de uma pequena ajuda por parte de Pedro Gonçalves. Ao fim dos dois temas iniciais, o contrabaixo foi trocado por uma guitarra eléctrica, tocada sublimemente nos temas Lisboa Mulata e Cachupa Man. A sala estava composta mas muitos estavam já a caminho de outras paragens.
EMA, uma das revelações da música alternativa do ano de 2011 apresentou-se na sala 2 do Cinema São Jorge num registo cativante e intenso, do ponto de vista da sala bastante satisfatório. Cria-se um duelo de guitarras e violino electrónico com sons ríspidos e crus adicionados à voz lúgubre de Erika M. Anderson que olha o amor e a vida como uma tragédia digna de uma broken heart girl com uma forte atitude e presença em palco.
Entretanto demos um salto à estação de metro dos Restauradores onde nos cruzamos com doismileoito, capazes de estimular uma enchente de pessoas à entrada e de colocar os presentes a par de uma dança com o single Quinta Feira. O quarteto apresenta-se com raízes entre o rock e o pop com umas breves passagens pelo ska. Apesar de curto foi uma experiência agradável e animada que não deixou ninguém ficar parado e onde o quarteto se desdobrou facilmente nas suas funções e instrumentos. A diversidade entre o público presente era enorme e inquietos, não chegaram a ter os Pés Frios.
Seguimos para o Terraço do Hotel Tivoli onde Warren Hildebrand ou se preferirem, Foxes in Fiction deu início à sua actuação utilizando-se apenas de uma guitarra e um teclado num registo experimental a desvanecer suavemente para o dream pop. Elogiado pela Pitchfork, Warren cria e reiventa novas técnicas de abordagem electrónica capazes de cativar os presentes. Será de referir no entanto um som de fundo anteriormente gravado e demasiado marcado que, ao vivo acaba por não resultar.
A banda dinamarquesa Oh Land chegou com algum atraso, mas rapidamente tal foi esquecido. Muitos já estavam de pé dançando ao som de Perfection, que deu início ao concerto. Com uma bandelete a lembrar um chifre de unicórnio, Nanna Øland Fabricius mostrou desde o início que a sua missão da noite era conquistar o público português. Não foi difícil. Não sei se houve alguém que saiu daquela sala sem se ter apaixonado pela cantora. O seu passado na dança é perceptível nos seus movimentos e os temas são facilmente digeridos.
O teclista e o baterista que a acompanham são bons no que fazem e ela também. Sempre a puxar pelo público, a energia e simpatia da dinamarquesa não deixaram ninguém imune e temas como Sun of a Gun, Voodoo ou mesmo Wolf & I fizeram o resto – a sala estava quase toda de pé e as primeiras filas mais que rendidas aos encantos da banda.
Nanna contou que tiveram a sorte de ter 3 dias para conhecer e passear por Lisboa, bem como comer Pastéis de Belém e invejou os portugueses por terem sol até tão tarde, ao contrário do seu país. Temas como Rainbow, Lean ou Deep-Sea (dedicado especialmente ao público português) deram a conhecer o lado mais emocional e romântico dos álbuns Fauna e Oh Land e fizeram as delícias dos espectadores.
Um dos pontos altos da noite teve lugar no Cabaret Maxime por volta das 23h quando os dinamarqueses When Saints Go Machine entraram em palco. Um pop sintético que nos traz à memória Animal Collective, com ritmos orientais e viagens sonoras diversificadas acompanhadas por luzes avermelhadas que aqueciam o espaço e que fazem a sala encher aos poucos. São as composições clássicas do sintetizador a intersectarem a voz mística do vocalista pausadamente que nos fazem arregalar os olhos e que nos hipnotizam criando ritmos envolventes que nos obrigam a ficar. Poderia muito bem ter sido a revelação da noite se não soubessemos o que viria a seguir.
De volta ao Terraço do Hotel Tivoli, desta vez para ouvir Beat Connection, que tocavam ao mesmo tempo que os Aquaparque. Podemos considerar, sem margens para dúvidas, que a banda de Seattle é uma das pérolas do lo-fi e chillwave da nossa geração. Escutamos In The Water e tornou-se visivél uma nostalgia presente em todos os cantos da sala, saudades do Verão ou de qualquer recordação aprazível. Por momentos podemos parece que nos encontramos numa discoteca ou num bar frequentado pela malta indie que de vez em quando gosta de fugir ao habitual apesar do teclado e da bateria que definem o ritmo apresentarem bases tipicamente pop. Os presentes das mais variadas faixas etárias dançaram eufóricos e pediram por mais à medida que viajavam entre os beats à anos 80 ou por sons mais minimalistas edificados por uma guitarra e um excelente kit de sintetizadores.
Era altura de James Blake. Pelo menos para alguns. Porque muitos ficaram na rua, numa fila que chegou ao Marquês (eu disse que tinha sido ridícula). O cantor inglês, que já tinha estado no festival Optimus Alive! em Julho levou ao teatro uma autêntica maré de fãs, curiosos e – infelizmente – simples admiradores da sua aparência. O recinto continuava a encher quando o músico entrou em palco. Unluck fez as honras e foi bem escolhida. Tep and the Logic seguiu-se-lhe e I Never Learnt To Share deixou-nos perplexos: como era possível estar quase toda a gente ainda sentada?
É inegável que o contraste entre os temas em estúdio e ao vivo é muito grande. As músicas ganham força, mais ritmo e uma energia que parece puxar por nós e não nos larga enquanto não nos deixarmos levar. CMYK foi uma das favoritas (mas também não houve propriamente nenhuma que não fosse) e o festival de gritinhos e “chiuuuu” que durava desde a primeira música continuou. Se alguém ganhou, foram os gritinhos. Infelizmente. Limit To Your Love provocou algum histerismo, bem como Wilhelms Scream e o encore com A Case of You.
Corremos para a sala principal do S. Jorge onde conseguimos ouvir Toro y Moi, ainda dentro da onda chillwave e dream pop a derrapar pelo rock a que tão bem nos habituou. Não podemos infelizmente considerar Toro y Moi como um concerto capaz de marcar a noite sendo a setlist espectável, não criando assim qualquer surpresa com os temas tocados. No entanto, o público chegou-se à frente para ouvir os temas do novo álbum Underneath The Pine e ficou hipnotizado por tais temas capazes de ganharem uma nova dimensão ao vivo.
No Cabaret Maxime, Lindstrøm enchia o local com a sua música electrónica. A fila para entrar era enorme, preenchida por aqueles que ainda iam a meio de uma noite de música e divertimento. Lá dentro, o clima era de dança.
Finalmente, rumamos pela última vez para a estação de metro dos Restauradores, pelo menos no contexto do festival, para ouvirmos os tão aguardados e célebres Blood Red Shoes que ainda não se cansaram de meter os sapatos por cá. Fãs de Fred Asteire ou apenas curiosos, como seria de esperar conseguiram transformar os pares de sapatos brancos que se encontravam na sala vermelhos de dançar frenéticamente ,saltar ou simplesmente sacudir a cabeça e bater o pé aos ritmos acelarados e imparáveis de Steven Ansell. Bandas influentes como Nirvana ou Pixies são reconhecidas nos acordes de Laura- Mary Carter que em Light It Up incendiou o pavimento e os presentes a começar nas filas da frente que gritavam em plenos pulmões as letras mais que decoradas da banda britânica.
Decerto que a estação nunca esteve tão abafada como na noite de hoje onde os já experientes Blood Red Shoes divagavam entre o primeiro e o segundo álbum tocando temas como Heartsink, It’s Getting Boring by the Sea, I Wish I was Someone Better, Keeping it Close e Say Something Say Anything que levou desde início a uma espécie de riot na multidão, algo comum nas actuações da banda. Um concerto impetuoso e arrebatador que só ficou a perder pelo espaço em questão, a pior aposta da organização em termos de localização mas que nem por isso impediu o público de apreciar o que terá sido o encerramento da primeira edição do Vodafone Mexefest.
O Porto, sabe agora com o que contar. Preparem os vossos melhores sapatos e em Março, não deixem de visitar a edição nortenha do festival possivelmente mais cansativo do país. Cansa, mas sabe bem.
O movimento no Porto vai-se centrar, pelo Coliseu, Maus Hábitos, Passos Manuel e outra série de salas onde, com certeza, passará boa música.
Reportagem The Antlers em Lisboa
Nov 6th
O Festivais de Verão assistiu, na passada quinta-feira (3 de Novembro), a uma noite estreante de sucesso para os The Antlers, que, na sua primeira atuação em Portugal, produziram um concerto coerente, envolvente e de enorme qualidade. Uma Lisboa assolada por condições climatéricas menos favoráveis não conseguiu forçar a mão da grande fila que esperava ansiosamente à porta do Lux pelos fantásticos nova-iorquinos, que acabaram por retribuir a boa fé portuguesa com boa música.
Sem banda de abertura, e apesar de um atraso considerável, Peter Silberman e companhia deram uma entrada silenciosa no palco do Lux, rodeado por uma sala cheia. "Parentheses" foi o tema escolhido de abertura, escolhido a dedo do mais recente Burst Apart, e assim começa a melancólica, mas reconfortante viagem musical, marcada por uma crescente influência electrónica do recente material dos artistas. Burst Apart demarca-se do aclamado Hospice (2009) não por ser menos deprimente (oxalá o fosse), mas sim por ser mais expansivo e harmonioso.
"No Widows" e "I Don't Want Love" são excelentes exemplos disto: é uma vertente pop que se associa ao indie rock intimista e sorumbático dos nova-iorquinos e que não deixa indiferente um público mais velho contidamente entusiástico. De facto, as letras e melodias do recente esforço, parte considerável da setlist do concerto, já pareciam estar na ponta da língua dos portugueses – o que é de louvar, visto sofrer um pouco do síndrome segundo álbum, especialmente por suceder a um álbum tão acalmado como Hospice.
Se a recepção agradou à banda nova-iorquina, esta pouco o demonstrou, mantendo a comunicação com o público num mínimo. Silberman, o porta-voz e alma torturada de excelência dos The Antlers, encantou com o seu falsetto emocional, ganhando toda uma nova presença em palco que não possui em disco – o que contribuiu para o impacto emocional da guitarrada quer metódica, quer assoladora, e para a construção de um ambiente íntimo que embalou e abarcou o público português. Os temas de Hospice não falharam: "Kettering" e a aplaudida "Bear" são suaves e imensamente tristes e aliadas à simbólica "Every Night My Teeth are Falling Out" fazem os momentos da noite.
"Queremos agradecer à British Airways por terem reavido metade do nosso material quinze minutos antes de vocês chegarem", brinca Darby Cicci, o multi-instrumentalista encarregue das teclas. Foi, de facto, um percalço que podia ter impedido esta fantástica noite de música de ter acontecido, mas ainda bem que não o fez, uma vez que fomos presenciados com momentos cada vez melhores à medida que esta terminava. "Putting the Dog to Sleep" é interrompida por um Silberman emocionado e espantado com a adesão dos seus fãs, "Corsicana" é devastadoramente bela, como um murro no estômago e "Sylvia" acaba por fechar a noite numa nota alta, que serve um testemunho à qualidade musical dos The Antlers.
Podem não ser os músicos mais criativos do panorama musical, mas o que fazem é honesto e vem de dentro – atributo que nunca passa despercebido. Daí que esta primeira experiência em Portugal tenha sido um absoluto sucesso... e esperemos que voltem em breve.
Reportagem The Get Up Kids em Lisboa
Oct 22nd
O concerto dos The Get Up Kids foi o primeiro – pelo sim, pelo não – grande concerto a acontecer depois do anúncio do aumento do IVA no sector da Cultura. Pelos vistos, os portugueses começam já a fazer os seus próprios cortes e poupanças para o próximo ano, e deixaram a República da Música quase a um quarto da lotação para receber os americanos. Há escolhas e escolhas.
Para a primeira parte, os Moe’s Implosion mostraram que a música da margem sul vai além de Setúbal, vai pelo menos até ao Montijo. Apesar do público tímido, o quinteto não se deixou amansar. De forma bastante energética e com uma cumplicidade bastante particular daquele – claro – grupo de amigos, apresentaram “Light Pollution” o primeiro de longa duração que sucede o EP “Morning Wood”, ainda a estrear, mostrando-se bastante entusiasmados e divertidos em palco. Não podia faltar a única música até agora conhecida, Tip of the Tongue, e Doctor, dedicada com a maior sinceridade às pequenas organizadoras e pessoas que se esforçam por trazer música em que os grandes não pegam – por maior que essa música seja, como foi o caso dos The Get Up Kids.
À entrada, Matthew Pryor pediu desculpas pelo atraso de 16 anos em pisarem terras lusas, como se a culpa fosse deles.
Apesar dos anos de casa, os The Get Up Kids não têm uma discografia exorbitante, pelo que lhes foi bastante simples mostrar um pouco de tudo, não se focando unicamente à mostra do mais recente “There Are Rules”.
Começou-se um concertos que se sabia de antemão que seria nostálgico para muitos, reconfortante para outros, com Holiday e I’m a Loner Dottie, a Rebel de “Something to Write Home About”. Regent’s Court dá a conhecer os americanos de agora, e surpreendentemente ou não, parece que os fãs deixam o sing-along para o som mais antigo, não se mostrando totalmente a par das últimas novidades. A situação altera-se em No Love, do primeiro “Four Minute Mile”. Continuamos tímidos no entanto, muito levados pelo vazio da sala, pelo cansaço de uma quinta-feira à noite, ou demasiado focados nos anos 90 da banda e contentes por finalmente terem chegado até nós.
Por entre Red Letter Day e Woodson, o single Shatter Your Lungs, usado até à exaustão pelas rádios, volta a trazer uma acalmia. O crowdsurf foi deixado mais para o final, pela altura de um encore pouco esperado. Estávamos absolutamente rendidos à simpatia dos The Get Up Kids, que agradeciam constantemente. Shorty, Pararelevant e Holy Roman fizeram parte da lista das escolhidas, antes de Jim Suptic, o Mr. Kansas como Pryor o cognomeou, dar início à acústica Campfire Kansas, levando os irmãos Pope (Rob no baixo, e Ryan na bateria) a trocarem os seus instrumentos, um pela bateria e outro, a par de Pryor, pela pandeireta. James Dewees, teclista, ficou-se pelo seu canto.
Um momento bonito, ajudado pelo público quase emocionado. Para o final, Rememorable, Oh Amy e Walking on a Wire fizeram as despedidas, os votos de um regresso em menos de 16 anos, e as palmas para um encore não planeado.
De volta ao palco, os cinco reservaram-nos I’ll Catch You, Coming Clean e Ten Minutes dos dois primeiros álbuns. Mas a noite não ficava por aqui.
Prometida que estava a dança, voltam ao palco para um segundo encore, mais inesperado a outro nível. Quando Rob começa a dedilhar o baixo, em toda a sala se esboçaram sorrisos, com os acordes de Boys & Girls, dos Blur. Um fim de noite bastante animado, assim como tinha começado, com um público certeiro a acompanhar a voz de Suptic.
Agrada ver gente com vontade. Como disse João Sancho dos Moe’s Implosion, este concerto foi um risco que nem todos estão dispostos a correr.
Apesar da sala meia, os The Get Up Kids pareceram satisfeitos com o pequeno público que os acompanha, puxaram pessoas para o palco e nunca deixaram cair o seu concerto.
Esperamos que não falte outra década.
Reportagem MGMT – Lisboa
Dec 19th
Dia 18 de Dezembro, o Campo Pequeno recebeu os MGMT no seu regresso a Portugal, após dois longos anos e meio. A plateia esgotou e as bancadas estavam bem compostas, enquanto se aguardava a entrada da banda em palco.
Antes deles, os Smith Westerns abriram o palco. Uma banda jovem de Chicago, simpáticos e que canalizam a energia para as músicas que interpretam. Apenas meia hora chegou para mostrar que são uma banda merecedora de atenção.
O relógio marcava uns minutos depois das 22h quando as luzes se apagaram e a exaltação se instalou. Apresentações? Podem ser dispensadas, mas para quem não viu a banda a apresentar o seu álbum “Oracular Spectacular” - eleito pela NME como o melhor de 2008 - no Optimus Alive! de há dois anos (ninguém vos culpa, The National estava a tocar no palco principal), este era um concerto a não perder.
A não perder pelos fãs, por aqueles que os entendem, por todos aqueles que compreendem o segundo álbum, por todos os que sabem que a “Kids” não é tudo na vida dos MGMT e por aqueles que sabem que a “Siberian Breaks” (durante a qual muitos adormeceram, para além de terem saído do concerto a achar que durante esse tempo se tocaram quatro músicas diferentes) é muito mais um espelho do que os MGMT querem alcançar. A “Kids” é genial, sim, mas já lá vamos.
Depois de um cumprimento por parte de Andrew, “The Youth” fez as honras. Andrew e Ben, a juventude em pessoa, fazem música para graúdos. E não falo de idades. Ainda que os seus fãs sejam maioritariamente jovens, o público perfeito para temas como “Time to Pretend” e “Electric Feel”, foram temas como “The Handshake” ou mesmo “The Youth” (ambos ainda do primeiro álbum) que provaram no palco secundário do Optimus Alive! que têm muitos mais que se lhes diga do que uma mera combinação de notas que fica presa no ouvido. “Congratulations” assumiu por completo o rumo que já havia sido criado em “Oracular Spectacular” mas feito de uma maneira mais directa. E a verdade é que as actuações de MGMT ao vivo complementam todo o trabalho da banda ao criar cada álbum. Falo de tudo, desde luzes a vídeos, às interpretações em si e à maneira como as mesmas são feitas.
E assim foi mais uma vez. “The Youth” foi fantástica e no fim do tema, já Andrew tinha nas mãos uma bandeira portuguesa. “Time to Pretend” seguiu logo a seguir. Escusado é dizer que o público delirou, afinal de contas era um dos momentos mais esperados por todos. “Song for Dan Treacy” (sobre um cantor inglês dos anos 90 que serviu pena na prisão) manteve todos a dançar, antes de outro tema antigo: “Weekend Wars”. Mesmo sendo do álbum anterior, não arrebatou o entusiasmo que merecia, ainda para mais ao vivo, onde ganha – ainda mais – vida!
Andrew, tímido (ou absorvido?) tocou ferrinhos e pegou numa guitarra acústica para interpretar “I Found a Whistle”. A música fala disso mesmo: de um apito. Um apito que a certo ponto rima com pistola, numa letra que complementa a composição e vice-versa. A mistura dos mais diversos sons e instrumentos sempre teve um papel importante no trabalho dos MGMT. No novo álbum, tal aspecto foi ainda mais explorado e “I Found a Whistle”, por mais subtil que possa ser, é uma prova disso mesmo. No clímax da música, o enorme ecrã atrás da banda ganhou vida e vídeos com cores e jogos de ilusões e formas inundaram o recinto.
Propícia a mais delírios, “Flash Delirium” entra em cena. Sendo o tema que é – fantástico, digo –, seria de esperar que o público se deixasse levar mais. Mas para lá das primeiras filas, o entusiasmo não transparecia tanto. Continuando o sistema de alternar entre o álbum novo e o seu antecessor, começaram-se a ouvir os primeiros acordes de “Of Moons, Birds and Monsters”. E a quebrar o ciclo, veio então “Electric Feel”. O público ficou, sem dúvida, eléctrico (perdoem o trocadilho).
De máscara de Rudolfo, a Rena, o teclista desejou a todos um Natal Feliz. Banda de poucas palavras, todos os seus membros sabem que o espectáculo resulta muito melhor da maneira que é executado. Directo ao que interessa: a música. Que continuou com “It’s Working”, tema de abertura de “Congratulations”, mesmo antes de uma surpresa: “Destrokk”, um dos primeiros temas que os MGMT criaram. Data de 2005, tirado do EP “Time to Pretend”. As mãos no ar contavam-se pelos dedos, bem como as pessoas que conheciam o tema. Contudo, pelo final da interpretação, o tema já reunia um número de fãs que aumentara exponencialmente em 3 minutos.
No álbum, “Siberian Breaks” tem 12 minutos. Tocada ao vivo ronda o mesmo tempo. Um tema complexo, uma autêntica viagem por entre sons, instrumentos e combinações. Ao ouvir “Congratulations”, torna-se difícil distinguir o princípio e fim dos vários temas. E a beleza do álbum está nisso mesmo: no sucesso que foi ao ser criado como um todo, uma evolução, uma jornada. Assim, torna-se mais difícil ter-se temas tão independentes como “Time to Pretend”. Por isso não foi de admirar que metade do Campo Pequeno estivesse estática ao fim de 5 minutos, depois de terem pensado que a música já acabara pelo menos duas vezes. Mas não se preocupem, caros espectadores, pois eis que chega o momento alto da noite, pelo qual todos esperavam.
“Kids” não consegue entrar subtilmente numa actuação, e nem é isso que se pretende. A música é fenomenal de tão simples que é. Ao vivo ou em casa, é impossível ficar indiferente, digam o que disseram. Não tardará muito a que se torne num autêntico hino, ao lado de “Seven Nation Army” dos White Stripes ou “We Are the Champions” dos Queen. O desagrado da banda em relação ao público ir a concertos na mera esperança de a ver ao vivo, muito mais que às outras (sobretudo depois da recepção do novo álbum, que dividiu muitas opiniões) é no entanto evidente: já abandonaram um recinto em Londres sem ter tocado o tema, devido à falta de entusiasmo ou sequer interesse demonstrado pelos “fãs”.
Andrew e Ben a postos, tal como haviam feito no Optimus Alive!, cantavam lado a lado. Andrew limpou inclusive suor da testa do teclista que agora fascinava de guitarra eléctrica em mãos. O recinto saltava como se não houvesse amanhã, como se todos ali fossem crianças de novo, por 5 minutos. E isso não sabe tão bem?
Mas o que soube ainda melhor foi “Brian Eno” ter-se-lhe seguido. A homenagem da banda ao artista – que outra palavra usar para reunir tudo o que Eno é? – não só evidencia as suas admirações como desejos íntimos: «We're always one step behind him, he's Brian Eno. Brian Eno!». Antes dos últimos acordes, Andrew agradeceu a todos por terem vindo e tornado o espectáculo óptimo. A música terminou e a banda saiu.
Poucos minutos depois, estavam de volta. Andrew voltou a agradecer e elogiar o público por cantar tão bem. Isto porque durante o encore, só se ouviu… adivinharam: “Kids”! Com mais duas músicas para encher o ouvido, “The Handshake” foi a primeira. Palavras para quê? Os MGMT sabem o que fazem quando entram num estúdio, quando pisam um palco, quando tocam os instrumentos e quanto nos deliciam durante 10 minutos seguidos com instrumentais de mestre.
Para o fim, haveria melhor opção que “Congratulations”? Claro que não. A palavra era entoada pelos fãs de forma intensa, num agradecimento por mais um concerto assombroso. De sorriso nos lábios, a banda abandonou o palco então de vez, depois da dose de alucinação (no bom sentido) que havia proporcionado. Não é impossível de todo que alguém tenha passado na rua e tenha visto o Campo Pequeno a planar no ar sob um céu pintado com as cores do arco-íris, onde golfinhos com asas saltavam por entre nuvens que choviam gotas brilhantes multicolores.
Em 2008, os MGMT fizeram o palco secundário do Optimus Alive! crescer a olhos vistos perante um recinto mais que lotado.
Em 2010, levaram o Campo Pequeno numa viagem que poucos saberão apreciar como ela merece, mas decerto nunca irão esquecer. A quem conseguiu perceber o que estavam a presenciar, resta-nos esperar que a próxima vinda não demore tanto tempo outra vez.
Passatempo Musuc’Bag
Jul 13th
O Festivais de Verão em associação com Cervantes, Ramalho e Martins – Representações, Lda tem para te oferecer, não um, nem dois mas sim TRÊS Musuc’bags.
Não sabes o que é um Musuc’bag??? Fica a saber um pouco da sua história: Originalmente desenvolvido em 2006, Musuc’bag Sleepwear System foi criado por Rodrigo Alonso em Santiago, Chile. Em Fevereiro de 2007, o Musuc’bag fez sua estreia na Europa em Munique, Alemanha, tornando-se a “Brand New Award Finalist”, uma prestigiada honra para novos produtos outdoor (produtos de actividades ao ar livre) no mercado Europeu. O Musuc’bag fez sua estreia no mercado Americano em Agosto de 2008 e tornou-se imediatamente numa sensação no mundo outdoor. Mais tarde nesse ano, o Musuc’bag foi chamado de "produto de consumo do ano" pelo Chile Diseno.
A Cervantes, Ramalho e Martins – Representações, Lda (representante oficial do Musuc’bag em Portugal) e o Festivais de Verão convidamos-te a desfrutar da viabilidade e da função deste premiado, inovador e divertido sistema de roupa de dormir (sleepwear system).
Reportagem Três Cantos @ Coliseu do Porto
Nov 5th
Depois de duas noites completamente esgotadas no Campo Pequeno em Lisboa, foi a vez de os "Três Cantos" chegarem ao Coliseu do Porto para dois concertos igualmente esgotados. E foi assim, num ambiente de enorme expectativa que se aproximou a hora de apagarem as luzes da sala e por momentos se sentir no silêncio da sala uma inquietação prestes a ser saciada.
Os 22 músicos que os acompanham nesta aventura entram em palco e começa "Guerra e Paz", de Sérgio Godinho. É então chegada a hora de José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto Bordalo Dias entrarem juntos e cada um anunciar a sua chegada recebida em plena apoteose. Muita emoção num público sedento de boa Música Portuguesa e para quem este concerto tinha logo à partida um significado muito especial pela força da reunião dos três mestres, também eles emocionados.
Emoção foi aliás uma das palavra-chaves deste concerto que há já muitos anos tinham vontade de realizar e que desde Maio prepararam com todo o cuidado este espectáculo único. Todo este tempo de preparação resultou numa actuação coesa em que os espaços deixados para os momentos a solo de cada um dos protagonistas ou para os duetos não fossem de forma nenhuma sentidos como forçados. O próprio alinhamento foi capaz de conduzir o público por uma viagem inevitavelmente saudosista, mas de forma nenhuma preso num passado distante, muito pelo contrário, pretende-se deste encontro revisitar o passado sim, mas sempre de olhos postos no que há-de vir.
Zé Mário é o primeiro a ficar sozinho e a dirigir-se ao público, salientando a unidade da diferença de cada um e deixando o aviso "contem com isto de nós, para cantar e para o resto". Pouco depois era Fausto a pedir atenção à actualidade de temas escritos há já alguns anos mas que parecem fazer cada vez mais sentido, como por exemplo "Eis Aqui o Agiota". Por fim, Sérgio Godinho, protagonizou um dos momentos da noite com "O Primeiro Dia" na voz de um Coliseu repleto.
Ao contrário do que muitos esperariam, o público não era de forma nenhuma homogéneo. Não eram pessoas de meia-idade, que ali procuravam o reviver de tempos onde o termo "intervenção" aparecia ligado a estes autores, fosse pelas suas composições ou pelas suas acções. Muita gente jovem, de idade e de espírito encheu o coliseu e de todas as idades, de todas as motivações e das mais variadas expectativas, o Coliseu ganhou uma voz uníssona em quase todas as músicas. Temas como "Cuidado Com as Imitações", "Mudam-se os Tempos Mudam-se as Vontades", "Maré Alta", "Inquietação", "Adeus Orelhas de Abano", "Que Força é Essa", "Se tu fores ver o mar (Rosalinda)", "Onofre", "A Nova Brigada dos Coronéis" e "Ser Solidário" fizeram as delícias de um público que no fim, comentando a falta deste ou daquele tema que gostava de ter ouvido, se mostrava satisfeito e nada desiludido.
E não podia de facto estar desiludido. Momentos como "Não Canto Porque Sonho", cantada numa magnifica versão a 3 vozes, fazendo inevitavelmente lembrar a já de si belíssima versão gravada com Fausto e Zeca Afonso em 1974. Zeca que "não podia deixar de estar presente" numa homenagem com a interpretação de "De Não Saber o que me Espera" num dos momentos a trio.
Houve ainda espaço para um prometido inédito intitulado "Faz Parte" ou se preferirmos "O Retorno das Audácias". Ainda a 3 vozes, ouvimos "Charlatão" com Fausto a protagonizar um momento divertido, demonstrando a sua alegria de vitória sobre o kazoo que mostrou já praticamente dominar (ou mais ou menos).
Para terminar, e porque tinha mesmo que acabar, tivemos direito a dois encores, o último dos quais com todos os músicos na frente de palco de bombos, adufes e baquetas para uma interpretação de "Na ponta do cabo" que fechou definitivamente a noite.
Foi uma noite mágica, carregada de emoção e que certamente ficará na memória de todos os presentes. Para ajudar a manter essa memória viva foi gravado um DVD e CD que já pode ser comprado em pré-venda na FNAC e estará disponível a partir de 10 de Dezembro.
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Se dúvidas houvesse, a música e os músicos portugueses têm público e estarão cá ainda por muito tempo "para cantar e para o resto".
Reportagem Três Cantos @ Coliseu do Porto
Nov 5th
Depois de duas noites completamente esgotadas no Campo Pequeno em Lisboa, foi a vez de os "Três Cantos" chegarem ao Coliseu do Porto para dois concertos igualmente esgotados. E foi assim, num ambiente de enorme expectativa que se aproximou a hora de apagarem as luzes da sala e por momentos se sentir no silêncio da sala uma inquietação prestes a ser saciada.
Os 22 músicos que os acompanham nesta aventura entram em palco e começa "Guerra e Paz", de Sérgio Godinho. É então chegada a hora de José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto Bordalo Dias entrarem juntos e cada um anunciar a sua chegada recebida em plena apoteose. Muita emoção num público sedento de boa Música Portuguesa e para quem este concerto tinha logo à partida um significado muito especial pela força da reunião dos três mestres, também eles emocionados.
Emoção foi aliás uma das palavra-chaves deste concerto que há já muitos anos tinham vontade de realizar e que desde Maio prepararam com todo o cuidado este espectáculo único. Todo este tempo de preparação resultou numa actuação coesa em que os espaços deixados para os momentos a solo de cada um dos protagonistas ou para os duetos não fossem de forma nenhuma sentidos como forçados. O próprio alinhamento foi capaz de conduzir o público por uma viagem inevitavelmente saudosista, mas de forma nenhuma preso num passado distante, muito pelo contrário, pretende-se deste encontro revisitar o passado sim, mas sempre de olhos postos no que há-de vir.
Zé Mário é o primeiro a ficar sozinho e a dirigir-se ao público, salientando a unidade da diferença de cada um e deixando o aviso "contem com isto de nós, para cantar e para o resto". Pouco depois era Fausto a pedir atenção à actualidade de temas escritos há já alguns anos mas que parecem fazer cada vez mais sentido, como por exemplo "Eis Aqui o Agiota". Por fim, Sérgio Godinho, protagonizou um dos momentos da noite com "O Primeiro Dia" na voz de um Coliseu repleto.
Ao contrário do que muitos esperariam, o público não era de forma nenhuma homogéneo. Não eram pessoas de meia-idade, que ali procuravam o reviver de tempos onde o termo "intervenção" aparecia ligado a estes autores, fosse pelas suas composições ou pelas suas acções. Muita gente jovem, de idade e de espírito encheu o coliseu e de todas as idades, de todas as motivações e das mais variadas expectativas, o Coliseu ganhou uma voz uníssona em quase todas as músicas. Temas como "Cuidado Com as Imitações", "Mudam-se os Tempos Mudam-se as Vontades", "Maré Alta", "Inquietação", "Adeus Orelhas de Abano", "Que Força é Essa", "Se tu fores ver o mar (Rosalinda)", "Onofre", "A Nova Brigada dos Coronéis" e "Ser Solidário" fizeram as delícias de um público que no fim, comentando a falta deste ou daquele tema que gostava de ter ouvido, se mostrava satisfeito e nada desiludido.
E não podia de facto estar desiludido. Momentos como "Não Canto Porque Sonho", cantada numa magnifica versão a 3 vozes, fazendo inevitavelmente lembrar a já de si belíssima versão gravada com Fausto e Zeca Afonso em 1974. Zeca que "não podia deixar de estar presente" numa homenagem com a interpretação de "De Não Saber o que me Espera" num dos momentos a trio.
Houve ainda espaço para um prometido inédito intitulado "Faz Parte" ou se preferirmos "O Retorno das Audácias". Ainda a 3 vozes, ouvimos "Charlatão" com Fausto a protagonizar um momento divertido, demonstrando a sua alegria de vitória sobre o kazoo que mostrou já praticamente dominar (ou mais ou menos).
Para terminar, e porque tinha mesmo que acabar, tivemos direito a dois encores, o último dos quais com todos os músicos na frente de palco de bombos, adufes e baquetas para uma interpretação de "Na ponta do cabo" que fechou definitivamente a noite.
Foi uma noite mágica, carregada de emoção e que certamente ficará na memória de todos os presentes. Para ajudar a manter essa memória viva foi gravado um DVD e CD que já pode ser comprado em pré-venda na FNAC e estará disponível a partir de 10 de Dezembro.
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Se dúvidas houvesse, a música e os músicos portugueses têm público e estarão cá ainda por muito tempo "para cantar e para o resto".









