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Reportagem Cut Copy – Lisboa
Mar 24th
Dia 23 de Março, Lisboa, Coliseu – o regresso de uma das bandas mais acarinhadas pelo público português. Depois do concerto do Super Bock Super Rock, não se esperava menos que um espectáculo com “E” grande. Se havia melhor opção para dar as boas vindas à Primavera que um concerto de Cut Copy, por favor elucidem-me.
Eram 22h e as luzes apagaram-se. Não houve banda de abertura, foi-se directo ao assunto. Pouco mais de metade do Coliseu ficou por encher. Melhor!, mais espaço para dançar. A banda entrou em palco e a saudação do público encheu todos os cantinhos da sala. Acabados de lançar o seu mais recente trabalho, “Zonoscope”, há algum tempo que os australianos conquistaram o público português.
O concerto foi considerado pela banda como o primeiro «a sério» em Lisboa, dado que anteriormente só tinham tocado em festivais e na discoteca Lux. Pode dizer-se que as expectativas eram altas para ambas as partes. Nenhuma ficou desiludida, num concerto cujo melhor adjectivo para o descrever só pode ser “contagiante”.
A abrir, “Visions”, imediatamente seguida por “Nobody Lost, Nobody Found”. Problemas técnicos no som à parte, os fãs faziam-se notar – entoavam letras, agitavam os braços no ar. Um “obrigado” em pronúncia quase perfeita demonstrou o apreço do vocalista, Dan Whitford, que dançava e puxava pela audiência de forma irresistível.
Empatia entre os membros é algo que não falta na banda. Contaminante, na verdade. O que se passa em palco salta sobre as grades para o público de forma tão natural que não se avistava uma única pessoa quieta. Foi em temas como “Where I’m Going” ou “Corner of the Sky” que se notou que, apesar de fresco, “Zonoscope” já fez com que muitos se rendessem ao seu conteúdo.
A variedade de sons e as influências post-punk, new wave e synthpop dos anos 80 resultam em temas apelativos e alegres. As luzes são parte de um espectáculo onde os sentidos se fundem e instigam uma experiência cuja principal premissa é a harmonia entre os ingredientes usados.
Uma das mais esperadas, “Lights & Music”, foi recebida com entusiasmo desmedido, mal se ouviam ainda os primeiros acordes. «Go crazy!» era o comando do vocalista, repetido várias vezes ao longo do concerto. E o público obedecia. “Take Me Over”, o novo single, foi entoado sem falhas pelos fãs. A dança continuava, sem fim à vista.
“Saturdays” preparou o público para o que seria o momento da noite – “Hearts on Fire”. Amigos às cavalitas uns dos outros, corpos que dançavam ao som de timbres que deliciosamente invadiam o recinto e os ouvidos. Antes de “Sun God”, Tim Hoey fez questão de dedicar a música a um rapazito cuja «cool mom» (nas palavras do guitarrista) o tinha levado ao concerto. Boa disposição para dar e vender, sorriso nos lábios de cada membro, a felicidade de estarem naquele palco a tocar, não havia nada mais evidente.
Não foi de admirar, por isso, que, após 10 minutos de um fantástico instrumental a terminar o tema, muitos assobiassem quando a banda começou a sair do palco. Já? O encore chegava e o barulho que se fez durante menos de 5 minutos foi quase ensurdecedor.
A banda voltou e imediatamente Tim pegou no microfone e desfez-se em elogios àquela que chamou a sua cidade preferida no mundo. Lisboa foi o «final perfeito para o fim da tour. Obrigada por terem vindo, foram provavelmente o melhor público de toda a tour». Outra medalha, o público português gosta de as conquistar, concerto após concerto.
“Need You Now”, mais que sabida por todos os presentes, assistiu a um mar de mãos no ar enquanto se ouvia o refrão cantado a plenos pulmões pela plateia. Para o fim ficou “Out There on the Ice”, claramente outra das favoritas dos fãs.
O final foi abrupto, com a música a parar de repente e um mar de luz branca inundar o recinto.
Em grande. Não podia ser de outra forma.
Reportagem SBSR 2010 – 16 de Julho
Jul 17th
A 16ª edição do festival Super Bock Super Rock iniciou-se ontem, dia 16 de Julho, para mais uma ronda de rock veranil e festivaleiro. Este ano o local do evento musical escolhido foi a Herdade do Cabeço da Flauta, perto do Meco, possibilitando, assim, aos festivaleiros, a opção de frequentarem a praia, bem próxima e a uma viagem de autocarro de distância. Neste primeiro dia, actuaram alguns dos nomes mais esperados, como Pet Shop Boys, Grizzly Bear, Beach House e Keane, apesar de ser impossível vê-los todos por inteiro, actuando sobrepostos em palcos separados.
Os Godmen, uma das bandas a ganhar o concurso Super Bock Super Rock Reload, abriram o palco secundário. O trio portuense, com uma sonoridade de desde o progressivo ao new wave, bem tentou captar a atenção do seu público, mas foi Jamie Lidell quem atraiu a maior parte das pessoas ao palco principal. O cantor britânico, de 36 anos, subiu ao palco acompanhado de 5 membros da banda, com a descontracção que deixa transparecer na sua música de forma tão exímia. Com influências de soul e funk, a cadência musical de Lidell desliza de forma suave, sendo enfatizada pela sua excelente voz e fazendo lembrar até Otis Redding. Jamie Lidell entretém os poucos mas crescentes espectadores com ‘Another Day’ e ‘Compass’, do título homónimo, que conta com a ajuda na produção de um dos membros de Grizzly Bear, que também actuam neste dia.
Já St. Vincent, de nome Annie Clark, segue-se no palco secundário. A cantora e intérprete americana já colaborou com vários artistas como The Polyphonic Spree e Sufjan Stevens e conta também com algum apoio do público português, um pouco por estar associada à vaga Pitchfork de Beach House, Grizzly Bear e Bon Iver, entre outros, logo, não é de estranhar a resposta entusiasta, principalmente dos que se encontram nas filas dianteiras. De Actor, o seu mais recente esforço, Clark tocou ‘Actor Out of Work’, ‘The Strangers’ e ‘Marrow’, debruçando-se na sua guitarra para completar o esforço do seu guitarrista principal. Sempre encantadora, mas pouco comunicativa, Annie despediu-se. O concerto soube a pouco.
De novo no palco principal, Mayer Hawthorne apresenta o seu primeiro álbum A Strange Arrangement, muito na onda do artista que o precedeu, apesar de um pouco mais funky. Destaque para a cover de ‘Mr. Blue Sky’ dos Electric Light Orchestra, completamente transformada com a estética musical do artista. Tanto Lidell como Hawthorne mostram a força da nova liga do soul e são promissores.
Fãs de Portugal convictos, os Beach House voltam uma nova vez para aquecer os festivaleiros com melodias doces, numa noite que já começava a arrefecer. Por volta das 20:40, Victoria Legrand e Alex Scally, acompanhados por um baterista, entraram sorridentes no palco secundário e desde cedo demonstraram o seu entusiasmo por estarem de volta. Contrariamente ao concerto no festival Super Bock em Stock, de Dezembro do ano passado, os Beach House mostraram ser melhores no ambiente aberto de um festival, talvez por disporem de melhor disposição e por terem o contributo do baterista, que aliava mais ‘corpo’ ao indie pop suave dos artistas. ‘Walk in the Park’, ‘Norway’ e ‘Used To Be’ foram alguns dos êxitos tocados mais esperados, num set que parecia destinado a agradar aos que o viam.
“Are you ready?”, grita Dan Whitford - segue-se a vez do synth pop electrónico dançável dos Cut Copy no palco principal. Munidos de uma iluminação multicolor, a banda australiana foi, talvez, a melhor surpresa da noite. Apresentando muitos dos temas de In Ghost Colours, mostraram-se energéticos e entusiastas o suficiente para contagiar os inúmeros espectadores que dançavam e saltavam ao som das melodias etéreas de ‘Hearts on Fire’ e ‘Feel the Love’. Apenas se pode apontar que o dinamismo e a profundidade dos temas em estúdio se perde um pouco ao vivo, apresentando um lado mais dançável, algo com que o público português não se parecia importar.
Com mais uma mudança de palco, apesar de tocarem em horas sobrepostas, somos mais uma vez levados ao palco EDP, desta vez para apreciar o concerto dos The Temper Trap. Já actuaram na edição de Paredes de Coura do ano passado e, desde aí, a adesão à música dos artistas parece ter aumentado: o carismático Dougy Mandagi suscitou as maiores manifestações de apreço e de carinho. ‘Love Lost’ e ‘Sweet Disposition’ foram alguns dos maiores destaques do set da banda australiana, que apenas conta com o álbum Conditions, do ano passado.
Os britânicos Keane também não se podem queixar da aderência dos festivaleiros, que preenchiam, por esta altura, quase a totalidade do palco principal. Vedetas do soft rock, ligado a Snow Patrol e Coldplay, tocaram hit após hit, como deles era esperado: ‘Bend and Break’, ‘Everybody’s Changing’, ‘This is the Last Time’, ‘Somewhere Only We Know’, entre outros, foram tocados com agressividade branda e especial entusiasmo do teclista, que mal se continha na sua cadeira. Tom Chaplin e a sua trupe proporcionaram um bom e energético concerto que agradou e deixou ser agradado.
No entanto, Edward Droste, um dos membros dos Grizzly Bear, espalhava simpatia e graça natural nos seus afectuosos comentários entre as músicas, dedicados ao público português que não o deixou ficar mal nos Coliseus de Lisboa e Porto, enchendo o local de espectáculos até às costuras, no passado mês de Maio. Veckatimest foi o álbum mais contemplado do set do conjunto americano, mas o resto da bagagem não foi esquecida: até ‘Slow Life’ que emprestaram ao filme Twilight, foi interpretada em palco conjuntamente com a charmosa Victoria (Beach House), que também concedeu a sua voz inesquecível ao single ‘Two Weeks’. Em qualidade, nada carece, na recepção, também não – os Grizzly Bear foram os justos cabeças de cartaz do palco secundário, confirmadas as expectativas num concerto calmo, rico e excelente.
Após a longa espera, os fãs dos Pet Shop Boys foram presenteados com um autêntico best of do historial de singles do duo britânico. O excêntrico Neil Tennant, dotado de uma voz extremamente característica, aparece, pela primeira vez, sob um fundo animado com um cubo de cartão na cabeça e acompanhado por diversas dançarinas, que com passos de dança robóticos, lembravam muito a estética kraut-rock dos anos 80. Já Chris Lowe, a outra metade, dedicava-se aos teclados de semblante calmo, intervindo para ajudar aos coros. Lendários, mas, por vezes, rígida e excessivamente estéticos, os artistas contagiaram uma extensa plateia de fãs com o electrónico dos temas como ‘Heart’, ‘It’s a Sin’ e ‘Go West’, num passeio nostálgico pelo historial da banda, que até a confettis teve direito! Porém, apesar de tecnicamente ainda competentes, o set dos Pet Shop Boys pareceu algo forçado e repetitivo, o que lhe retirou alguma qualidade à que estávamos à espera. Após o encore, os Pet Shop Boys despedem-se e fecham este primeiro dia de festival.
Foto: Ana Limas
