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Reportagem Monotonix – Hard Club
Feb 28th
A noite de 26 de Fevereiro era bastante concorrida na cidade do Porto: para além do habitual Clubbing na Casa da Música, com a presença de Peter Hook (baixista de Joy Division); e da actuação dos norte-americanos Tyvek no Armazém do Chá; havia ainda um concerto por cima do público, no Hard Club. Sim, não é engano: ao contrário de outras bandas, que dão concertos em cima do palco, os Monotonix preferem tocar (literalmente) em cima do público. E é, provávelmente, mais o espectáculo que estes israelitas proporcionam, do que a própria música que tocam, que levou nesta noite muita gente a preferir o Hard Club a outras salas de espectáculos no Porto. Muitos devem lá ter ido matar, na medida do possível, as saudades do Milhões de Festa – lembre-se que as três bandas presentes neste evento fizeram parte do cartaz do festival Milhões de Festa 2010, sendo a actuação dos Monotonix unânimemente considerada uma das melhores de todo o festival. Outros vieram vê-los, com certeza, porque já ouviram por aí falar daquilo que estes loucos são capazes!
Os primeiros a subir ao palco foram os Larkin. Este quinteto de hardcore do extremo norte do país aproveitou para vir mostrar o seu mais recente trabalho de estúdio, aquecendo o público para o que viria mais tarde. O público mostrava-se ainda pouco ou nada efusivo, apesar do esforço e da boa actuação destes cinco rapazes de Viana do Castelo.
Os The Glockenwise, que se seguiram, lá conseguiram mais alguma empatia com o público do Hard Club. Nuno, Fiusa, Rafa e Cris vieram de Barcelos cheios de atitude e energia, trazendo para mostrar “Building Waves”, primeiro álbum destes quatro rapazes, recentemente editado pela Lovers & Lollypops.
Após a actuação das duas bandas portuguesas, era tempo para um pequeno intervalo, a fim de preparar a sala para o arraial de garage rock israelita que se adivinhava. Enquanto que do lado de fora se dava dois dedos de conversa e se fumava o cigarrinho, lá dentro preparava-se o concerto dos Monotonix que, de monótono, só têm a semelhança de nome. Amplificadores em cima do palco, bateria e guitarra no chão: a ideia é a de tocar no meio do público. Não faltou muito até que alguns curiosos se fossem aproximando, sentando-se a observar a montagem antes do início da actuação. E eis que surgem Ami Shalev, Yonatan Gat e Haggai Fershtman, o trio de Telavive que compõe a banda mais esperada da noite.
Ami Shalev, vocalista, dá início ao concerto mais caótico que consigam imaginar, começando por atirar água para cima do público. Os três senhores peludos do país mais judeu do mundo foram-se passeando pelo meio e por cima do público, enquanto tocavam temas de “Body Language”, “Where Were You When It Happened?” e o novíssimo “Not Yet”. O público, esse, esforçava-se por vê-los mais de perto, andando durante todo o concerto de um lado para o outro, numa tentativa de acompanhar uma “fila da frente” que muda permanentemente de sítio. Alguns tinham mesmo de pegar, ora nos membros da banda, ora na tarola da bateria que, nas actuações dos Monotonix é elevada acima das cabeças da assistência e tocada por Ami Shalev.
Depois de experimentar uma peruca rosa-choque de um membro do público e de uma breve passagem pelo balcão do bar do Hard Club, coberto de álcool e cascas de laranja, Shalev dá por terminado o espectáculo com uma pequena demostração de empilhamento de peças de bateria e posterior desempilhamento por arremeso de banco.
Esta terá sido, infelizmente, uma das derradeiras e últimas oportunidades de ver Monotonix ao vivo. Diz-se por aí que os membros da banda pretendem dar mais atenção à família, em detrimento de prestações incríveis e suadas como a que se pôde assistir (e sentir) nesta noite.
Reportagem Optimus Alive!10 – 9 de Julho
Jul 10th
O segundo dia do Optimus Alive!10 começou sob um calor ainda mais abrasador que o dia anterior. O palco secundário serviu de refúgio e local de descanso. O recinto estava cheio, mas não necessariamente de ouvintes, apenas grupos exaustos que preferiram relaxar ao som da música enquanto recobravam energias e aguardavam as bandas que queriam mesmo ver.
Hurts, duo de Manchester, abriu o palco. A música, descrita como disco lento, agradou a alguns, mas não cativou. O vocalista Theo Hutchcraft ainda tentou que o público se levantasse, mas sem sucesso. Temas como Illuminated foram apresentados e o single Better Than Love fechou a actuação.
Seguiram-se Holy Ghost!, outro duo, desta vez nova-iorquino. A dance music que apresentaram cativou mais gente, quer pela variedade de instrumentos em palco – desde cornetas, saxofones e teclas –, quer pelo ritmo mais apelativo. A banda, bastante recente (2009) já fez sucesso por vários países com as suas remisturas de Phoenix e LCD Soundsystem, entre outros. Fizeram parte do repertório os temas Say My Name e Hold On (considerado por iTunes como "Single of the Week", aquando do seu lançamento).
A abrir o palco principal, a banda australiana Jet, apresentou garage rock. O público ia aumentando, mas parecia não haver muita energia a correr pelas veias dos espectadores. That’s All Lies iniciou o espectáculo. A banda, bem-disposta, esteve à vontade em palco. O vocalista Nic Cester interagiu com o público, ao qual pediu ajuda para cantar alguns temas, incluindo o mais recente single Seventeen, que fez sucesso entre a multidão. O ponto alto no entanto, estaria guardado, como seria de esperar, para Are You Gonna Be My Girl. As letras da música ouviram-se pelo Passeio Marítimo de Algés e a dança foi mais que muita.
De novo no palco secundário, The Maccabees eram esperados. Muitos fãs aguardavam com cartazes e metade do recinto já estava em pé. Aplausos entusiásticos ressoaram pelo espaço quando a banda entrou em palco. O vocalista Orlando Weeks não continha os sorrisos e a alegria de ver tantos admiradores que sabiam as letras de cor e dançaram durante todo o concerto. Gesticulou corações e pegou num cartaz da plateia que dizia “first love”, enquanto cantava o tema homónimo. All in Your Rows e Tissue Shoulders fizeram sucesso, intercaladas por momentos mais calmos, num repertório agradável e sedutor. A empatia entre público e banda era notável e contribuiu para tornar esta actuação numa das melhores do dia. A multidão delirou ainda com Precious Time e No Kind Words. Love You Better estava guardada para o final daquele que foi o «concerto preferido em Portugal» da banda. Um espectáculo que aqueceu o coração.
Provenientes de Braga, os Mão Morta actuaram ainda de tarde neste segundo dia do Optimus Alive. Ainda com o mais recente Pesadelo em Peluche na bagagem, Adolfo Lúxuria Canibal e companhia conjugaram mais que bem os clássicos de sempre com as novas músicas, nas quais os Mão Morta se mantiveram iguais a si mesmos. Do novo album músicas como “Teoria da Conspiração”e “Novelos da Paixão” puseram à prova a fidelidade dos fãs da banda minhota, com sucesso. Sapo, Miguel Pedro, Joana Longobardi, Vasco Vaz e António Rafael fizeram sempre questão de ser a orquestra perfeita para que o carismático Adolfo Lúxuria Canibal brilhasse com eles. Um excelente concerto, como sempre, que teve os seus momentos mais altos em “E Se Depois”, “Budapeste”, “Anarquista Duval” e “1º de Novembro”.
Se ontem o conceito de bateria siamesa era ainda estranho a alguém, bastava uma passagem pelo Palco Virtual para perceber do que se tratava. Com o EP É uma Água acabado de lançar, os PAUS entram no palco mais subvalorizado do festival para se apresentarem ao público do Alive! que ignorava Mão Morta no palco principal. Bateria(s) a cargo do ex-The Vicious Five Joaquim Albergaria e Hélio Morais dos Linda Martini e If Lucy Fell, com uma ajuda surpreendente de Chris Common dos – para infelicidade de tantos – falecidos These Arms Are Snakes, entraram a rebentar como de costume. O público estava mais que convencido. Se seria de esperar que, a descoordenar-se algo, seria a bateria, “uma dança a dois” como Joaquim descreve, mas foi durante ”Mete as mãos à boca” que as vozes gritaram cada uma para seu lado. As palmas do público não ajudaram ao regresso ao ritmo, mas a festa continuou. Makoto desceu ao público para um crowdsurf altamente desaconselhado pela organizadora e dá-se assim lugar a Zombies for Money.
New Young Pony Club eram os seguintes na lista. Tahita Bulmer, vocalista da banda, não continha o seu entusiasmo por estar de novo em terras lusas, perante um público que conhecia tão bem e que a encantava. Hiding on the Staircase foi a primeira a ser tocada. O recinto estava cheio, na expectativa de um bom espectáculo. Apesar de alguns problemas técnicos, a banda esteve sempre animada e a líder encheu o palco, dançando para lá e para cá, toda ela sorrisos e atrevimento. Diversão em palco, que facilmente se espalhou por todos. Ice Cream foi das melhor recebidas, juntamente com o tema Lost a Girl, do mais recente álbum, "The Optimist". Foi, no entanto, The Bomb que proporcionou a maior festa do concerto.
Tinha chegado um dos momentos mais esperados pelo público. Era a vez de os The Gossip entrarem em palco. O espaço do palco Super Bock estava apinhado, o palco principal tinha menos espectadores. Beth Ditto e a sua banda já proporcionaram alguns dos melhores concertos que Portugal já viu, por isso não era de admirar tamanha mobilização. Standing in the Way of Control foi um início explosivo, onde corpos saltaram e dançaram numa confusão carregada de emoção e energia. Os ânimos acalmavam e exaltavam-se de acordo com os temas e Beth colocou um turbante na cabeça durante alguns dos temas mais calmos, tais como Coal To Diamonds. Yr Mangled Heart animou as hostes antes de uma cover da Psycho Killer dos Talking Heads, onde a possante e inebriante voz de Ditto correu à solta. Seguiu-se outra cover, desta feita de Tina Turner. A letra de What's Love Got to do With It foi cantada a plenos pulmões pela audiência, que ia perdendo a cabeça aos poucos. One More Time de Daft Punk sucedeu-lhe, antes do que seria o ponto alto da actuação. Heavy Cross começou a ouvir-se, enquanto Ditto descia às grades e pedia aos seguranças que pegassem em membros do público para subirem ao palco. À semelhança de 2008, a invasão do palco no final do concerto dos Gossip deixou todos arrepiados e ainda mais agitados. É provavelmente a razão pela qual a banda não actua no palco principal, já que é incontestável o estatuto que possui. Abraços, emoção e um bocadinho da I Will Always Love You de Whitney Houston deram por finalizada a actuação que deixou todos a querer mais.
Quinze anos após o desaparecimento de Richey Edwards, os Manic Street Preachers já têm nos planos Postcards From a Young Man, mas é ainda com o album Journal For Plague Lovers que visitam o Palco Optimus. E que grande inicio desta banda do País de Gales com Motorcycle Emptiness do album de estreia Generation Terrorists, com James Bradfield irrepreensível na guitarra e voz. Em muitas músicas, os Manic Street Preachers levaram o público português numa viagem pelos anos noventa, mais concretamente com alguns sucessos dessa década como “Everything Must Go”, “Tsunami”, “From Despair to Where” e “Kevin Carter”. Alegria era o que vinha do palco e ia contagiando o público, que junto às grades contava com muitos fãs dos galeses. Ao fim ao cabo do mais recente album apenas foi tocada “Jackie Collins Existential Question Time", sendo que a setlist se baseou numa excelente colectânea do que está para trás de Journal For Plague Lovers, com uma grande interpretação acústica de “The Everlasting”, proporcionando um excelente fim de tarde no Passeio Marítimo de Algés.
Já de noite em Algés, os Skunk Anansie entram em palco dando inicio à actuação com Selling Jesus, do album de estreia Paranoid and Sunbumt. A entrada frenética de Skin e companhia prometia um concerto em cheio, e verdade seja dita, a figura incontornável de Skin é o combustível perfeito para uma actuação imparável. Os singles da banda, como “Charlie Big Potato”, “Charity” e “Brazen (Weep)” despertaram as memórias das dezenas de milhares presentes. Em “Weak”, Skin fez questão de cantar bem perto do público, para êxtase dos fãs da banda de terras de sua magestade. Para o encore ficaram reservados os clássicos “Hedonism” e “Little Baby Swastikkka”, este último o primeiro single dos britânicos. Para a posteridade ficará a energia de Skin, e o concerto bastante profissional o quarteto londrino.
Os alemães Booka Shade deram início à parte final, mais electrónica, das actuações no palco Super Bock. Com uma carreira composta por vários álbuns e singles bem sucedidos, o duo house contém ainda no seu repertório uma vasta lista de remisturas de bandas de renome, tais como Moby, Fischerspooner, Hot Chip e ainda Tiga.
Para fechar a noite no Palco Optimus, esperavam-se os norte-americanos Deftones, espera essa bastante longa, devido a um atraso da banda de Chino Moreno. Havia muitos fãs da banda ansiosos pelo ínicio do concerto, e quando o frontman subiu ao palco, a reacção só podia ser eufórica. “Headup” e “My Own Summer” deram inicio ao concerto, com esta segunda a puxar pelas gargantas do público português. De seguida “Diamond Eyes” e “Rocket Skates”, singles do último album dos Deftones, serviram de pretexto para uma série de músicas de Diamond Eyes. Tudo bem até aqui, muita energia, música pesada, ambiente de festa e muitos fãs com vontade de ver e ouvir mais. Mas a partir de “Feiticeira” tudo se tornou muito apressado. Clássicos como “Elite”, “Minerva”, “Root”, “Around The Fur”, “Change (In The House Of Flies)”, “Passenger” e “Back To School” animaram o público, mas a pressa em tocar também se sentiu na multidão, e quando Chino Moreno anunciou a última música e se ouviram os acordes de “7 Words” custava a acreditar que o concerto já ia terminar. O atraso da banda acabou por condicionar a actuação, e pela velocidade a que os temas iam sendo debitados é dificil acreditar que foram tocadas vinte e duas músicas. Fica de qualquer maneira a vontade da banda em dar ao público português o máximo de músicas possivel, mas também um concerto bastante aquém do que se poderia esperar.
Bloody Beetroots Death Crew 77 encheram o recinto que, mais uma vez, ficou a abarrotar. A loucura estava na ordem de trabalhos e os temas vigorosos impediam que os corpos se mantivessem estáticos. Entre moshpits e pessoas totalmente nuas, a sanidade ficou esquecida e foi altura de deixar de lados as inibições e seguir a maré.
Para fechar o palco Super Bock, Steve Aoki foi o escolhido. O americano trouxe na bagagem temas que resultaram numa afluência ao palco, vinda de todas as direcções. A dança continuava assegurada, a energia era mais que muita e o espaço parecia cada vez mais pequeno, apesar de já passar das 3 h.
O segundo dia do festival chegava ao fim, com mais actuações arrebatadoras a assinalar na lista. Para o último dia, as expectativas são gigantes. Mas, prognósticos… só no fim.
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Reportagem The Mary Onettes @ MusicBox
Oct 11th
No Sábado, dia 10 de Outubro, o Musicbox trouxe-nos The Mary Onettes à capital.
A abertura do concerto ficou ao encargo da banda madrilena Layabouts. Uma banda energética, que contou presença no Festival Paredes de Coura deste Verão, com riffs poderosos que facilmente nos puxam para a pista de dança com o seu garage rock contagiante.
Após a apresentação de músicas como “You Got It”, pertencente ao novo álbum lançado no passado mês de Setembro e intitulado de “...And They Ran Into The Woods”, os Layabouts puxam a audiência, com vontade de dançar, para a frente do palco com o seu mais recente single “Corrupted Scene Behind The Stage” e que por lá continua hipnotizada pelas guitarradas fortes de temas como “Cut My Strings” do álbum homónimo da banda. “Inside Looking Out”. A cover de The Animals prevê o fim do concerto com “Fine For Me”, um tema pujante com guitarradas fortes que nos deixou extasiados pela sua energia.
Oriundos da Suécia, os Mary Onettes criam uma fusão harmoniosa entre o rock dos anos 80 e a cena indie actual. Contam já com um álbum homónimo e 3 EPS; e preparam-se para lançar Islands do qual apresentaram “Puzzles”.
Temas como “Dynamo” e “Void” extasiaram a audiência com o seu bit identificável com um post-punk mais melodioso. Em tom de brincadeira, o vocalista aproveita então para sugerir que o público oferecesse cerveja à banda (pedido esse que depressa foi correspondido).
Philip Ekström - vocalista/guitarrista - anuncia que em “The Disappearence Of My Youth” virará as costas ao público para se juntar à teclista da banda, no órgão.
Partilhando uma balada, “God Knows”, o grupo consegue acalmar a sala, prevendo o ponto alto em “Explosions”, o conhecido tema que antecipou o encore.
Com um público bastante efusivo, os suecos regressaram rapidamente ao palco e acabariam por tocar mais dois temas. “Whatever Saves Me” seguida pela tão ansiada “Lost”, que acabaria por pôr assim fim ao belíssimo concerto.
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Reportagem Festival Paredes de Coura
Aug 3rd
29 de Julho
Desde 1992 que Paredes de Coura tem sido o festival de verão com uma identidade mais definida, dedicando-se maioritariamente à projecção de bandas associadas aos experimentalismos ou a esse termo tão vasto chamado “música alternativa”.
Felizmente, a perda da Heineken como patrocinador principal não impediu que este ano se vissem as bandas certas nos momentos certos – The Horrors, Howling Bells ou The Pains of Being Pure at Heart são bons exemplos – nem se traduziu numa ausência de nomes de peso como os Nine Inch Nails ou os Franz Ferdinand.
Os fracos aguaceiros não conseguiram assustar os já muitos festivaleiros preparados para o primeiro dia. Com o palco principal ainda a receber os últimos retoques, tudo se passou no melhorado Palco After Hours (este ano quase em formato tenda), estreado pela country-folk dos conimbricenses Sean Riley and The Slowriders.
Sim, eles podem ser portugueses mas toda a sonoridade tem raízes na América profunda. A americana e Bob Dylan transpiram nas guitarras e teclados da banda, com a actuação a atingir o auge no bem recebido “Houses and Wives”.
A chegada dos Strange Boys indica que o espírito de Dylan não saiu de palco com os portugueses. Também se encontram pormenores de country e blues nestes putos texanos mas com um ligeiro toque punk, incutido pela voz rouca de Ryan Sambol, algures entre os tons adolescentes de Alex Turner dos Artic Monkeys e Ray Davies dos Kinks.
Os pormenores de garage rock em “Woe is You and Me” e os woo-hoos de “No Way For a Slave to Behave” foram dos momentos mais deliciosos de um concerto que reflectiu a experiência de uma banda de miúdos que anda pela estrada há 4 anos.
Percebe-se que nas primeiras filas há fãs ansiosos de Patrick Wolf, em contraste com alguns comentários jocosos mais atrás. Com um fato de abutre e acessórios à personagem do Mad Max, Wolf dá inicio a uma actuação que varia entre a folk depressiva dos primeiros álbuns – em “The Libertine” e “Wind In The Wires” - e a pop de cabaret tecnicolor dos mais recentes “The Magic Position” e “The Bachelor”.
Acompanhado por uma violinista, um baixista, um baterista e sons electrónicos, o espectáculo carnavalesco de Wolf torna-se visualmente mais interessante quando celebra a sua pop, seja no melhor, transformando-se numa diva que tem tanto de David Bowie como de Kate Bush, seja no pior quando se assemelha a um número moldavo do Festival da Eurovisão. Para o final ficaram “The Magic Position” e “Hard Times” acompanhados com riffs de violino, e a quase new-rave de “Battle” sem esquecer uma curta tentativa de “Gigantic” dos Pixies.
30 de Julho
Ao segundo dia, boas noticias: Aparentemente já não há salmonelas no Tabuão, permitindo mergulhos no rio. Pelo recinto de campismo, o efeito de Pavlov dos gritos de “f*d*-se!” até pode perder rapidamente piada, mas dão azo a reacções interessantes em palco. Enquanto os Supergrass respondem com “what? what? what?”, o inocente vocalista dos Pains of Being Pure at Heart entende-os como elogios.
O segundo dia acaba por ser o dia com o alinhamento mais certinho, pautando-se pelo indie rock britânico. A abrir o palco principal, os australianos The Temper Trap não escondem as suas influências: rock com pretensões para encher estádios na linha dos Coldplay e U2 onde não faltam os obrigatórios crescendos e refrões épicos. Raramente os australianos saíram do insosso, criando apenas algum interesse com “Sweet Disposition”.
Com a certeza de serem uma das bandas com maior hype para a edição do festival deste ano, os The Pains of Being Pure at Heart falharam ligeiramente as altas expectativas que traziam. Raramente os nova-iorquinos fizeram sentir que estávamos a ver algo de especial. Uma das possíveis explicações terá sido o volume sonoro não estar suficientemente alto para que a muralha sonora que polvilhava uma doçura pop - típica dos My Bloody Valentine - se pudesse experienciar.
As três guitarras não escondem as influências dos Jesus & Mary Chain, The Smiths e até mesmo da shoegaze dos Ride num concerto que teve o momento alto em “Young Adult Friction”. Talvez num espaço mais fechado soe melhor.
Após o brilhante concerto dos The Horrors, poucos se teriam lembrado que os recentemente nomeados para o Mercury Prize estavam presentes como banda de substituição. Com um visual que não tira nada a uns The Cure, liderados pelo vocalista Faris Badwan (um “if they mated” entre Bruno Nogueira e Peter Murphy) a banda tem se libertado lentamente de uma sonoridade garage em direcção a terrenos mais psicadélicos. Prova cabal: nenhuma música do primeiro álbum “Strange Hous”e fez parte do alinhamento.
Deste modo, “Primary Colours”, álbum onde o psicadelismo convive com o gótico e com o shoegaze, foi apresentado quase na íntegra. A muralha sónica de “Mirror’s Image” e de “Do You Remember” são bons exemplos desta sonoridade. Mas foram os desnorteantes 8 minutos de “Sea Within a Sea”, a finalizarem com sintetizadores hipnotizantes, que imortalizaram os Horrors como uma das melhores performances a passar pelo palco de Paredes de Coura.
É um pouco estranho chamar os Supergrass de veteranos, mas a verdade é que apesar de terem entrado há pouco na casa dos 30 anos, já andam nisto há quase 15. A estreia tardia da banda dos irmãos Coombes em Portugal foi recebida entusiasticamente por poucos mas bons conhecedores da sua discografia, apesar do esforço comunicativo do vocalista Gaz.
Com mais blues rock do que britpop, os Supergrass visitaram praticamente todos os álbuns, desde a já antiguinha “She’s So Loose” até o que foi um dos grandes momentos do festival: “Rebel In You” do mais recente Diamond Hoo Ha. Pelo meio não faltaram clássicos como “Moving”, “Grace” e “Pumping On Your Stereo” que mereciam um cantarolar mais entusiasta por parte do publico.
Mas todo o alvoroço estava aparentemente guardado para os Franz Ferdinand. Não é preciso muito para a banda de Glasgow arrebatar um público. Tudo sai natural ao carismático duo Kapranos/McCarthy. A máquina de fabricar singles até pode ter perdido algum gás no último álbum Tonight: Franz Ferdinand, mas isso não é nada que possa deter uma banda com uma colecção invejável de êxitos.
“The Dark of the Matinée”, “Do You Want To” e “This Fire” conseguiram levantar literalmente o pó do chão e durante o refrão de “Take Me Out” até se conseguiu vislumbrar um very light vermelho aceso no meio da multidão. Para o encore sobraram os la-la-las de “Ulysses”, e ainda “Michael” que contagiou todo o recinto excepto um jovem que sentado na encosta à esquerda do palco preferia ler o seu horóscopo.
Após a celebração épica dos Franz Ferdinand, coube ao synth-pop dos Chew Lips e aos Holy Ghost! da DFA de James Murphy continuarem a festa no Palco After Hours, com concorrência do já lendário DJ do Windows Media Player fora do recinto.
31 de Julho
Afirmar que os Nine Inch Nails foram a banda mais aguardada da história de Paredes de Coura talvez seja um exagero, mas a verdade é que o dia de sexta-feira bateu o recorde de assistência do festival registando oficialmente 22 000 pessoas. Já às 17h30 se fazia sentir alguma ansiedade, quando após se abrirem as portas do recinto, vários fãs dos NIN corriam pela encosta abaixo na esperança de conseguirem um lugar na primeira fila.
Comprovando que nem em tudo que Adolfo Luxúria Canibal toca é transformado em ouro, os Mundo Cão viajaram entre o assombro e o ridículo, tentando por vezes um stoner rock. Palavra chave: “tentando”.
Apenas “Morfina” conseguiu no final alguma reacção dos poucos presentes, mas ficou a sensação que a maioria dos aplausos surgiu por o concerto ter finalmente terminado. O resto do alinhamento só provou que há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável.
Logo de seguida, os Portugal, The Man não arrancaram muito mais interesse ao publico. Os artistas mais conhecidos de Wasilla, no Alasca, a seguir à comediante Sarah Palin, destilaram prog-rock dos anos 70 não escondendo também a influência dos Led Zeppelin e um falsete do vocalista John Gourley bastante colado ao de Andrew VanWyngarden dos MGMT. Tudo soa tão épico quanto aborrecido.
Também conhecidos por serem os White Stripes dos pobres, os Blood Red Shoes não adiantaram muio à festa. O indie rock do duo de Brighton, na linha de uns The Kills ou The Subways, falhou em contagiar uma assistência que obviamente apenas ansiava pelos Nine Inch Nails, apesar de ter surpreendido em alguns momentos. Pelo menos, não são tão insossos ao vivo como em disco.
Depois de Juliette Lewis em 2005 e de Maja Ivarsson dos The Sounds no ano passado, coube a uma ex-professora primária preencher o papel de “fresca” do festival deste ano. Não, não estamos a falar da taróloga Maya, mas de Peaches.
Com uma performance sexualmente explícita, a canadiana não chocou propriamente ninguém, mas conseguiu criar um bom espectáculo ao exigir ao público que despisse as t-shirts, ao simular relações sexuais com um andaime ou através dos 83 fatos que usou durante todo o concerto. Quanto à música propriamente dita: uma nulidade. Um electropunk ao nivel de vários outros projectos menores que apenas não merecem honras de palco principal por não terem o número de circo de Peaches.
E finalmente, o momento mais esperado. É certo que ainda em 2007 os Nine Inch Nails deram 3 concertos em Lisboa, mas a aparição deste ano revela uma maior ansiedade já que foi dramaticamente anunciada como a última tour da banda de Trent Reznor. Infelizmente, não é o regresso nem a despedida que se desejaria. Sem os carismáticos Josh Freese na bateria e Aaron North na guitarra, a actual incarnação dos NIN foi reduzida a quatro elementos. A saber: o retornado Robin Finck na guitarra, Justin Meldal-Johnsen no baixo e o ex-lostprophets Ilan Rubin na bateria. A ausência de um teclista também obrigou todos os membros a dividir tarefas pelos sintetizadores.
Quanto ao alinhamento, nada a apontar já que a discografia da banda de Reznor permite sempre uma excelente setlist. A destacar: as excelentes interpretações de clássicos como “Terrible Lie”, “March of the Pigs”, “Head Like a Hole” ou “Wish”. Infelizmente, parte do público demonstrou ser pouco tolerante com momentos mais calmos como numa “La Mer” com contrabaixo e xilofone. Para o final, a banda dedicou-se a temas mais recentes como “Survivalism” e a uma “The Hand That Feeds” ainda mais rock fm que a versão de estúdio, até fechar com a intemporal “Hurt”.
É mais do que certo que um concerto dos Nine Inch Nails nunca defrauda ninguém, porém, para uma tour que se quer de despedida, exigia-se uma composição de palco superior à assistida. Quando comparada com os muros luminosos da Fragility Tour de 1999 ou com o ecrã interactivo da Lights in the Sky Tour do ano passado, os strobes e holofotes que estiveram presentes em Paredes de Coura parecem lanternas. No entanto, quem viu os Nine Inch Nails pela primeira vez não se pode sentir desiludido.
A fechar a noite no palco After Hours, e acompanhados pelos primeiros chuviscos a sério, os franceses Kap Bambino – synth-pop regada a cocaína, na linha dos Crystal Castles – e os Punks Jump Up fizeram parca concorrência ao já citado DJ do Windows Media Player.
1 de Agosto
Após a tempestade dos NIN na noite anterior, era natural que tudo estivesse mais calmo no dia seguinte. Na praia fluvial, os campistas relaxavam ao sol enquanto se dava uso ao megafone para pedir um saca-rolhas. Megafones que são a melhor moda do festival deste ano, cuja capacidade para criar loops vocais permitiu imortalizar frases como “o segurança do Ecomarché tem a mania que é grande.” Porque em loop tudo tem piada.
Quando o projecto Foge Foge Bandido de Manel Cruz pisou o palco principal às 19h havia ainda menos público do que num jogo do Belenenses no Restelo. A maior curiosidade prendia-se em como Cruz iria transpor O Amor Dá-me Tesão/Não Fui Eu que Estraguei para o palco. A resposta: com uma banda de cinco elementos onde se destacavam guitarras, bateria, banjo, xilofone, violino e sintetizadores. Apesar do lado mais experimental, canções como “As Nossas Ideias” contagiaram os mais atentos, apesar da maioria permanecer sentada.
No final, um momento inédito em Paredes de Coura. Pela primeira vez, uma banda teve direito a encore aceitando o pedido do público, apesar de não aceitarem uma solicitação para tocarem “Borboleta”. Ao invés, Manel e companhia responderam com os 11 segundos de “Mau Hálito”. Após o encore ainda aconteceu uma breve sessão de autógrafos ao lado do palco, onde uma fã demasiado ansiosa julgou estar prestes a desmaiar.
Existem várias bandas do indie rock espanhol a precisar de ser urgentemente descobertas pelos palcos nacionais. Nomes como os Nosoträsh, Los Planetas ou El Columpio Asesino. Os The Right Ons não são um desses nomes. Quem estava na frente bem celebrou com o seu retro rock – os bop-bop de “Thanks” são contagiantes - principalmente quando lhes foram distribuídas maracas, mas cá para trás ainda havia muito povo refastelado.
Os Howling Bells até poderiam ser a banda mais desinteressante de sempre que encontraríamos sempre um interesse em ver a banda em palco: a serpenteante dança da vocalista Juanita Stein, detentora do prémio para rapariga indie mais gira a pisar o palco de Paredes de Coura desde sempre. Mas a banda de Sydney via Londres também tem os seus interesses musicais.
Com um indie rock com toques de blues e electro dos anos 80 na linha dos The Duke Spirit ou de uns Black Rebel Motorcycle Club, os australianos apresentaram temas dos seus dois álbuns com destaque para os pa-pas de “Treasure Hunt”, para o riff descomunal de “Cities Burning Down” e para uma “Low Happening” que poderia se tornar num dos hinos do festival se a assistência não estivesse cansada/desencantada com a banda.
Pejado de um humor tipicamente britânico, Jarvis Cocker dava-nos as boas vindas ao espectáculo em bom português. Ironia foi o tom da actuação do maestro dos Pulp que começou por fazer erguer os braços do público através de uma aula de step, num concerto com uns pózinhos de stand-up comedy. Entre temas como “Further Complications” ou “Angela”, Cocker ainda nos conseguiu convencer que o saxofone não é um instrumento do demo com um rock à Blues Brothers de “Homewrecker!”
Pelo meio, Jarvis despiu o fato para gáudio das meninas presentes (uma das meninas chegou a oferecer umas cuequinhas ao senhor, que elegantemente colocou na sua lapela) enquanto se passeava por vários estilos, chegando mesmo a terminar a melhor actuação da noite com o disco sound de “You’re In My Eyes (Discosong)”. Certamente dedicado a todas as senhoras presentes.
Depois de um concerto dos The Hives só podemos nutrir dois sentimentos pelos suecos: ou se ama ou se odeia. Independentemente do julgamento, não há duvidas que a banda sabe montar um espectáculo e que o vocalista Howlin’ Pelle Almqvist sabe o que faz. Durante o concerto, Pelle ameaça incendiar a metade da plateia que não gosta de rock’n roll com o fogo que deitaria pela boca; responde a insultos com “está ali um tipo que quer fazer amor comigo”; faz alusões à rivalidade ibérica. Tudo isto tem piada da primeira vez, mas à segunda ou terceira torna-se estagnante.
E por mais energia que consigam libertar com o seu rock nostálgico, “estagnação” é a palavra de ordem no alinhamento dos The Hives. “Walk Idiot Walk”, “Main Offender” e “Hate to Say I Told You So” chegam a fazer alguém ao nosso lado questionar: “Mas já não tocaram esta?” ou “outra vez este riff?”. Todos os clichés do rock ‘n roll estão impregnados nos suecos. Sempre os mesmos acordes e sempre a mesma voz galinácea de Howlin’ Pelle Almqvist. O correspondente de Peaches para o rock ‘n roll.
Com o palco principal encerrado, os últimos sobreviventes rumaram ao Palco After Hours para testemunhar que há por aí bandas de rock interessantes no nosso país. Os Sizo prometem ser grandes, basta ouvir “Liar”. A finalizar, foi a vez de Nuno Lopes fazer concorrência ao DJ do Windows Media Player. Consta que não passou Animal Collective.
O Festival de Paredes de Coura regressa em 2010 entre 28 e 31 de Julho e já com uma não-confirmação: os Radiohead.
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