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Reportagem Com Truise no Porto
Nov 29th
Os últimos dois domingos do mês de novembro ficaram marcados por dois concertos matiné muito agradáveis e surpreendentes. A Lovers & Lollypops deu uso aquele que por muitos é visto como um dia enfadonho e aborrecido.
A música ambiente que se fazia ouvir nos Maus Hábitos quase se confundia com The Festmen, que entrou em palco muito discretamente. De repente, começam a a surgir vídeos quase aleatórios desde publicidades, desenhos animados ao programa O Preço Certo – com momentos e situações cómicas que se enquadravam com a sonoridade 8 bit extremamente dançável. Escusado será dizer que a setlist foi indecifrável, mas isso mostrou-se o menos importante, quem lá estava, e por poucos que ainda fossem, gostaram do que ouviram e não faltaram aplausos.
João Chaves é o sonhador de Dreams que através das suas músicas chillwave nos faz lembrar das mais belas memórias do verão, os tempos quentes e os dias repletos de sol. Acompanhado, ao vivo, pela guitarra de Ricardo Barbosa e pelos sintetizadores de Paulo Catumba, João e a sua voz afundada em reverberações já é bastante conhecido e falado pelas redondezas do nosso país.
Com a maior das honras, antecipa o concerto do projecto americano Com Truise. Uns sentados e outros de pé, cada vez com mais gente, mas ainda sem se aproximarem muito do palco, ouviram e aplaudiram as músicas que por lá se foram ouvindo "Step 1", "Step 3", "Interlude", "In Dreams" e "Don't Leave Me".
Com Truise é o nome do projecto musical de Seth Haley, músico electrónico de Oneida, Nova Iorque.
O nome, que muitas vezes é confundido com o de Tom Cruise, surge de um spoonerism, ou seja, de um erro ou um propósito deliberado, na expressão oral, onde as consoantes ou as vogais de uma palavra são trocadas. Seth Haley, com Com Truse, cria o estilo experimental que intitula de "mid-fi synth-onda, funk slow-motion", onde se consegue encontrar alguns fragmentos de Joy Division, New Order e Cocteau Twins.
Mal se começa a ouvir "Sundriped" o público aproxima-se instantaneamente e os seus corpos começam a dançar e a balançar ao som electrónico em slow-motion. Pouco tempo ouve para aplausos, música atrás de música, Seth e a sua ginástica musical feita à base de ajustes e reajustes nas mesas de misturas e processadores de efeitos, era acompanhado por um baterista, ainda que jovem, bastante dedicado e preciso nas batidas electrónicas dominadas por Seth. Algo inovador, diga-se, pois não é todos os dias que se assiste a um concerto electrónico com instrumentos como baterias, que tornam os ritmos mais genuínos trazendo a este estilo musical a ideia de criação sonora in loco.
Pela tarde ainda se ouviu "Slow Peels", "IWYWAW", "BASF Ace" entre outras. Não importou muito a setlist, o concerto foi tão contagiante que no fim só se queria mais. A Lovers & Lollypops comprovou, mais uma vez, que seja a que hora for, os bons músicos não desiludem e fazem a festa seja ou não em dia de descanso.
Esperamos assim que 2012 se torne mais certo e traga com ele mais alguns domingos como este.
Reportagem Festival Marés Vivas 2011
Jul 18th
A abrir o Festival Marés Vivas, presentes no palco MocheTMN, "Pitt Broken" e mais os 5 elementos da sua banda aqueceram o público com “Marés Vivas, Will You Be There for a Change?”. No seu estilo pop-rock, a banda apelou à paz e deu as boas-vindas aos festivaleiros com a versão “Bad Romance” e “Perfect Mirror”, que o público recebeu calorosamente.
O concerto seguinte no palco secundário começa com o tema “Lusíadas”, a banda de Coimbra liderada por José Rebola - Anaquim, provou mais uma vez a qualidade da música nacional. O público, com meia lotação, dançou e cantou os temas habituais, como “Na minha Rua” e “Tom Sawyer”. Na música “O Meu Coração”, originalmente em Dueto com Ana Bacalhau dos Deolinda, o vocalista interpretou a voz da cantora, provocando uma onda de aplausos e assobios na plateia. Em interacção constante com o público, a banda toca “As Vidas dos Outros” encerrando em beleza o concerto que já contava com mais de uma hora de duração.
Os brasileiros Natiruts abriram as honras do palco principal ao anoitecer do primeiro dia do festival. A sua música tranquila e cheia de boas vibrações abraçou os fãs que aguardavam ansiosamente pelos êxitos da banda, desde a abertura do recinto.
Misturando os temas clássicos com os mais recentes temas do álbum “Raçaman”, as mensagens de agradecimento à organização não ficaram esquecidas. A banda sublinhou ainda que “a cultura é investimento para o desenvolvimento” em tempos de crise. Relembrando a primeira actuação em Portugal, em 2005, a banda presenteou o público com o tema bem conhecido “Presente de um Beija-Flor”, que todos acompanharam cantando e balançando os braços bem no alto. Este concerto, com sabor a Verão, encerrou com o tema “Liberdade para Dentro da Cabeça”, para rejúbilo do público.
Os senhores do Rock & Roll Português, Xutos & Pontapés, subiram ao palco do festival Marés Vivas com a mesma força e vitalidade que sempre os caracterizou. Marcado pelo regresso de Zé Pedro, afastado dos palcos por motivos de saúde, o concerto contou com os clássicos “À Minha Maneira”, “Não Sou o Único”, “Homem do Leme”, “Maria”, “Chuva Dissolvente”, “Circo de Feras” e “Contentores”.
Entre os temas "Superjacto" e "Perfeito vazio", ambos do último disco, Zé Pedro aproveita para agradecer o apoio dos fãs, confessando que é no palco que se sente bem. Durante mais de uma hora e meia de concerto, pessoas de todas as idades cantaram com a banda os temas já conhecidos, frutos dos 30 anos de carreira da banda. Para terminar em beleza, o esperado tema “Casinha”.
Noite de lua cheia, já passava mais de trinta minutos da uma da manhã, uma multidão aguardava de braços abertos o mais esperado concerto da primeira noite do festival.
Manu Chao invade o palco com a sua energia e estilo contagiantes, camisa azul e chapéu esverdeado, num modo hiperactivo e com fome de palco, presenteou os fãs com os grandes hits da sua carreira durante um concerto que se prolongou até cerca das 4h00 da manhã. Temas como “Welcome to Tijuana”, “Por la Carretera”, “Bongo Bong”, “Clandestino”, “La Vida Tombola”, “Tà di Bobeira” satisfizeram as expectativas dos festivaleiros que acompanharam o concerto com muita cerveja, moche e drogas ilícitas.
Levando o público a saltar e cantar em uníssono, num modo de genuína diversão, foi o tema “Me Gustas Tu” que mais levou ao rubro a assistência. A festa foi constante, introduzindo pelo meio algumas mensagens políticas que assim tanto os caracterizam, Manu Chao vestiu na perfeição o papel de melhor entertainer da primeira grande noite do festival.
Os DJ´s de serviço, João Dinis e Nuno Cordeiro, animaram a noite dos sobreviventes da noite levada ao limite pelos Mano Chao. No palco secundário, ouviram-se temas de jazz, bossa, samba, reggae, ska, funk, drum&bass e afrobeat pela madrugada dentro.
15 de Julho de 2011
A dar início a mais uma noite de festival, durante cerca de 45 minutos, a banda de Mendes e João Só (bem acompanhado pelo público de Gaia), tocou temas como “Deixa-me ver”, “Sexta-Feira Teresa”, “Jimmy Olsen”, “Todas as noites”, “Documentos de amor” e “Vocês Sabem Lá” (numa versão que surpreendeu pela positiva), terminando com o tema “Sofia”. Realça-se a descontracção da banda durante o concerto, em plena harmonia com o ambiente vivido pela assistência.
A banda de Serafim Borges, Sérgio Silva, Pedro Ferreira e Bruno Macedo marcaram presença no palco principal do festival Marés Vivas, no dia 15 de Julho, ainda iluminados pela luz do dia. Os Classificados começaram o concerto com os temas do seu mais recente álbum, lançado no dia 13 de Junho, “Perdidos e Achados”. Relembraram ainda a sua primeira presença no festival, em 2008, ano em que foram nomeados para o prémio de “Melhor Revelação”. Verificou-se uma crescente ocupação do recinto, até se formar uma pequena multidão motivada pelos temas “Ela, Mudar a Minha Sorte” e “Com Medo de Voar”, este último a encerrar a actuação sob uma chuva de aplausos calorosos.
A abrir o palco principal no segundo dia do festival esteve a banda de Leça da Palmeira, Expensive Soul que, em 2011, tem dado cartas nos palcos nacionais. A comprovar este sucesso, é de referir os milhares de pessoas, principalmente camadas mais jovens, que aguardavam impacientemente o início do concerto. Sempre a puxar pelo público, a dupla Demo e New Max, com mais 11 elementos em palco “Jaguar Band” apelou ininterruptamente ao público com frases feitas:
“Como é que é Gaia?”, “Vocês são o melhor público de sempre”, “Vamos arrebentar com tudo isto”, “Quero ouvir essas palmas e os braços no ar”, conseguindo assim animar a malta com os temas “O Amor é Mágico”,”Dou-te Nada”, “13 Mulheres, “Tem Calma Contigo" e "Deixei de Ser Bandido". O tema “Eu não Sei” foi o encerramento de um concerto certeiro, no tempo previsto e sem direito a encore.
Depois da passagem pelo Coliseu da Invicta na digressão motivada pelo novo disco “Wonderlustre”, Skunk Anansie regressam aos palcos portugueses no segundo dia do Festival Marés Vivas. De fato preto justo e brilhante, juntando a um adorno assemelhando-se a umas asas coloridas e cintilantes, Skin abre as honras com o tema “Yes, It’s Fucking Political”, tema do seu novo álbum. Outras músicas do novo trabalho discográfico marcaram presença no concerto, tais como
“Charlie Big Potato”, “Because of You” e “God Loves Only You”. A música “Secretly” despertou a reacção esperada, levando o público a cantar em uníssono. Com a sua energia inesgotável, fez a temperatura subir na audiência com três “crowd surfing”, com perguntas “Are You Fucking Alive?” e mensagens políticas sobre os países que lutam pela sua liberdade cantando o tema “I’ve Had Enough”. Para todos os presentes, um concerto a recordar.
O início do concerto de Moby foi marcado pela entrada da vocalista da banda entoando “In My Heart” (do álbum “18”, remontando a 2002), elevando a expectativa das cerca de 20.000 pessoas que, nessa noite, assistiam ao espectáculo. Logo de seguida Moby invade o palco de guitarra em punho, introduzindo o tema “Go” que, carinhosamente relembra ser a sua primeira obra. Segue-se “Why Does My Heart Feel So Bad?”, tema que o público fez questão de acompanhar numa só voz.
No final de cada música Moby agradece “thank you, thank you, thank you” e em português, “obrigado” sempre mais do que três vezes. É de realçar o papel incansável de Moby em palco que, para além de cantar, deu cartas na guitarra, percussão e teclados. Cruzou temas como “Natural Blues” ou “Porcelain” com as batidas frenéticas de “Disco Lies”, “Lift Me Up”, “Feeling So Real” e “We Are All Made of Stars” (apresentada como a primeira música disco sonbre macânica quântica).
Este concerto fez a ponte entre as várias fases da carreira de Moby, destacando-se um estilo mais raver que nunca. A pergunta “It’s friday night, one in the morning, who wants a disco party?” não desiludiu quem veio para se divertir. No encore, houve direito a uma versão de "Whole Lotta Love", no início mais bluesy e no final num estilo à Led Zeppelin. O concerto encerra "Feeling So Real", um verdadeiro hino rave.
16 de Julho de 2011
Durante os 30 minutos de actuação, a luso-descendente Mia Rose presenteou o público com o seu charme natural e interpretou versões de temas de Rui Veloso, Maroon 5 e Cee Lo Green. Agradeceu a presença naquele que considera o “maior festival do Norte do País” e proporcionou um concerto relaxado, bem ao estilo do ambiente Marés Vivas.
Os Azeitonas, como seu estilo rock cheio e energia, subiram ao palco moche para protagonizarem um concerto que, apesar de semelhante a actuações anteriores, não deixou de satisfazer a pequena multidão que ocupou o recinto do palco secundário do festival Marés Vivas. Com a “casa cheia”, animaram o público com canções como “Quem és tu Miúda”, “ e “Anda Comigo ver os Aviões”.
Num palco decorado com vários candeeiros e uma carpete vermelha, a portuguesa Áurea e mais oito elementos da sua banda entraram no palco, primando pela pontualidade. Às 20h30 já um público vasto esperava a actuação da artista que, como tema de abertura "The Main Things About Me", seguido de "Waiting, Waiting (For Me)", foi trazendo cada vez mais pessoas para o recinto. Nas paragens entre as músicas a cantora, vestindo uma saia travada preta e top tigresa, e os pés descalços, não se esqueceu de agradecer ao público e à organização do festival.
Os membros da banda vestiam fato preto, gravata e camisa branca. Uma nota para as coreografias discretas do saxofonista e trompetista, com as mãos, acompanhadas habilidosamente por alguns membros do público. O quarto tema, o primeiro single da banda “Busy (For Me)”, encheu as medidas do público. Logo de seguida a cantora anunciou duas surpresas. A primeira revelou-se uma versão, primeiro sensual e depois em alta rotação da música “Kiss” de Prince.
A segunda surpresa foi uma versão de "Don't Ya Say It", de Bryan Adams. O tema "No No No No, (I Don't To Fall In Love With You Baby)" foi amplamente aplaudido e permitiu muita interacção com o público. O final foi feito com a repetição de "Busy (For Me)" , já com o palco completamente molhado.
A banda Tindersticks subiu ao palco principal protagonizando um concerto intimista, com pouca luz em palco e os ecrãs LED’s desligados. Apesar de se ter verificado que algumas pessoas saíram do recinto em busca de abrigo para a chuva, nem o estado meteorológico demoveu grande parte do público resistente do Marés Vivas.
O concerto foi uma verdadeira viagem pelos anos 90 e, apesar da notória desilusão demonstrada pelo Stuart Staples face ao clima que esperava em Portugal (até trouxe um fato de linho branco condizente com o bom tempo tão desejado), a banda cumpriu a sua missão e, sem grandes palavras para com o público, despediu-se de Portugal ao fim de menos de uma hora de concerto.
Para assistir ao concerto da banda irlandesa de rock alternativo, os The Cranberries, estiveram presentes mais de 20.000 pessoas, debaixo de uma chuva persistente. Apesar da paragem da banda entre o ano de 2003 e 2009, a voz inconfundível da vocalista Dolores O’Riordan não perdeu qualidade e presenteou os fãs com os temas "Linger", "Ode to My Family","Just My Imagination", "Salvation" (tema interpretado com penas de índio) e "Zombie" cuja letra foi maioritariamente cantada pelo público. No encore, repetiram-se os temas "Promises" e "Dreams" levando o concerto a terminar num ponto alto, para consolo dos fãs.
O artista Mika, que passou por Portugal na edição 2010 do festival Sudoeste TMN e, em Outubro passado pelas festas académicas de Coimbra, encerrou o palco principal no último dia do Festival Marés Vivas no 16 de Julho. Numa noite marcada pela chuva miudinha até à 3ª música do concerto,
Mika conseguiu motivar cerca de 22 mil pessoas a ficar até ao final do espectáculo que durou cerca de 1h30, debaixo de uma “brisa” cortante. Num palco decorado com falsos quadros antigos, um candelabro de cristal e com a banda vestida a rigor, a banda recebeu no seu “palácio” o calor de um público recheado de fãs incondicionais.
A dar entrada, soou o esperado tema “Relax, Take it Easy”, levando ao rubro a assistência. Sem deixar esmorecer os ânimos, seguiu-se a música “Big Girl (You Are Beautiful)” e “Stuck in the Middle”. Na quarta música Mika sobre para cima do piano, mostrando mais uma vez que com “pouco” faz muito espectáculo. Aproveita para elogiar a multidão e falar pequenas frases em Português, conquistando ainda mais a simpatia do público.
Dividiu o público em duas partes e propôs uma canção ao despique, para introduzir o próximo tema “Blame It On the Girls”. A noite ficou marcada pelos sucessivos êxitos das tabelas de vendas, tais como “We are Golden”, “Rain” (coincidente com o clima da noite), “Grace Kelly” e “Love Me”, “Lollipop” e uma música entoada em língua francesa. Uma noite a recordar.
Reportagem The Legendary Tigerman – Lisboa
Jan 23rd
Lendário, sem dúvida
Deus nos valha Paulo Furtado. Deus nos valham os Wraygunn, Deus nos valha Legendary Tigerman, Deus nos valham todas aquelas colaborações em que se meteu, todas as bandas-sonoras que já fez (fabuloso, o cine-concerto que deu com Rita Redshoes no MOTELx há dois ou três anos) e tudo o que da sua carreira saiu. Deus nos valha este músico que influenciou toda uma nova geração de música Portuguesa deixando-se influenciar pela geração que lhe precedeu e até pela que viveu. O concerto que se viu no Coliseu foi o reflexo perfeito da impressionante carreira de Paulo Furtado: grandioso e inesquecível. Puxou de todos os cordelinhos, foi a toda a sua carreira a solo ou em grupo e pôs em palco todo o seu percurso musical num espectáculo cuidado e pensado, que foi basicamente mais de duas horas de uma sucessão constante de grandes momentos.
Uma lista de excelentes convidados, alguma grandes surpresas e o grande músico com as grandes canções do costume. Num óptimo e longo alinhamento, Tigerman percorreu todos os seus álbuns a solo (dando, claro, destaque a Femina), na pose e estilo já conhecidos de um público fiel que esgotou o Coliseu de Lisboa. Sempre informal, sempre espontâneo, sempre a incentivar à festa (pediu ao público para se pôr de pé e ele acedeu, brincando com as queixas no livro de reclamações que tal pedido gerou na noite anterior, no Coliseu do Porto) e com um palco cuidado onde as projecções de vídeo tão adoradas pelo músico foram uma constante, Paulo Furtado deu um concerto memorável, naquela que custa a chamar de noite de consagração apenas porque, com tanto talento e uma carreira que não é curta, uma noite que merecesse tal designação já devia ter chegado antes. Quem já antes o tinha visto ao vivo já sabia, afinal de contas, o que esperar no Coliseu: um grande concerto.
Antes do espectáculo propriamente dito, há que mencionar a primeira parte de Rita Braga. Voz cativante ainda que imperfeita, que canta versões de bom gosto de tais clássicos como Under the Moon ou Dream a Little Dream of Me. Competente, sem dúvida e acima de tudo com fortes pontos de contacto com o músico que se seguiria. Percebe-se o porquê da escolha de Paulo Furtado e foi sem dúvida uma primeira parte que criou bem o tom para o que viria a seguir.
E depois duma agradável primeira parte, lá entrou Tigerman em cena, perante uma chuva de aplausos. Guitarra em riste, ecrã gigante por trás numa cortina que iria subindo e descendo ao longo da noite, onde rapidamente surge Asia Argento projectada. My Stomach is the Most Violent of all of Italy abre na perfeição as hostes, com a voz de Argento a ecoar em conjunto com a de Tigerman numa bela canção saída de Femina. Ao final da canção, que proporcionou um belo início, sobe a cortina e surge a bateria já tão conhecida dos fiéis e que em todos coloca um sorriso. Tigerman é one-man-show, é homem a tocar guitarra e bateria ao mesmo tempo, de óculos escuros e voz sussurrante, com aquele som directo e simultaneamente melódico, é ver em palco um homem como não há igual. O Homem Tigre senta-se e surge o primeiro clássico da noite: Walkin’ Downtown.
Grande momento, numa canção que ganha sempre com uma interpretação ao vivo exemplar, que joga tão bem com aquela hesitação no refrão da música. Não tardou muito a chegar Naked Blues, outro clássico, que mais uma vez nos relembrou das belas canções e discos que Furtado já nos dá há uns bons anos. Das grandes canções da sua carreira, faltou apenas Route 66. De resto, estiveram lá todas, interpretadas com a alma de sempre (espectacular, o momento em que dedicou Radio & TV Blues à “merda de rádio e televisão que temos”).
O concerto foi alternando entre momentos a solo e claro, momentos com os convidados, ao longo de mais de duas horas sempre bem ritmados (impressionante, tendo em conta o número de convidados). A primeira a entrar foi logo Lisa Kekaula, que tem talvez a voz mais impressionante de todas as convidadas do disco, sempre com energia e estilo… e aquela voz, meu Deus, aquela voz. Não tardou a entrar Cláudia Efe, com um vestido esvoaçante e (claro) sensual, que com Honey, You’re Too Much proporcionou um dos melhores momentos da noite. Rita Redshoes entraria em palco para mostrar ser a que tem a maior cumplicidade com o músico; aqueles olhares durante Sister Ray, por exemplo, deram uma tensão enorme à interpretação de uma excelente música. E que surpresa que foi quando mais tarde surgiu à bateria, para ajudar Tigerman e Kekaula a tocar Jockey Full of Bourbon, grande canção de Tom Waits que aqui ganhou nova alma com esta baterista, a guitarra de Furtado e a voz de Kekaula.
A participação de Jim Diamond (guitarra) e Mick Collins (bateria) proporcionaram talvez o momento mais rock da noite, com o Homem Tigre a ir buscar Girlse Big Black Rusty Pussyboard (um dos seus melhores temas) ao baú. Duas pérolas para os devotos, que foram banhadas a ouro com aquele belo solo de guitarra de Diamond e as batidas que tão bem assentaram de Collins. Big Black Rusty Pussyboard, em particular, é simplesmente uma canção obrigatória em qualquer concerto de Legendary Tigerman, verdadeiramente espectacular.
E o que dizer da participação dos Dead Combo, que teve o ponto alto em Lusitânia Playboys, música do duo que Tigerman fez questão de levar ao Coliseu? Instrumentalmente perfeito, com a guitarra de Tó Trips e a guitarra de Furtado em diálogo absoluto. Foi um daqueles momentos em que se pensou “Que sorte tenho eu em estar a ver isto”, dada a oportunidade única que é a de ver estes nomes pesados a actuar em conjunto. Já se esperava que fosse tão bom, claro: os Dead Combo são dos projectos musicais de maior valor e qualidade dentro das nossas fronteiras (que concerto arrebatador, o que deram com a orquestra no São Jorge há uns meses) e Tigerman é Tigerman. Foi uma oportunidade única que valeria por si só a noite, a de os podermos ver a tocar juntos. Oportunidade que não desperdiçaram para criar um momento que nos ficará na memória. “O melhor duo de Lisboa”, bem disse Furtado. “E os mais bem-vestidos!”, acrescentou.
Antes do encore (que foi a grande surpresa da noite, mas já lá vamos), foi a vez de JD Nelassassin e DJ Ride entrarem em palco, juntamente com João Doce, dos Wraygunn. Furtado brincou dizendo que chamaria àquele grupo de Quatro e que gravariam quatro canções em quatro dias e que dariam quatro concertos, acabando de seguida. Com aquele resultado, até se espera que não seja a brincar. Quem diria que resultaria tão bem, aquela fusão dos DJs com aquela guitarra ríspida do protagonista da noite? Foi uma verdadeira frente sonora, energia pura e rítmica, que acabou em alta o set principal com Say Hey Hey.
E foi depois, no regresso ao palco, que viria a grande surpresa do espectáculo. O encore começou com o regresso de Argento ao ecrã gigante, para interpretar com Tigerman a lindíssima Life Ain’t Enough For You, single de apresentação de Femina que na altura tanto passou (merecidamente) pelas rádios. E no final deste bonito momento, Furtado apresentou, um a um, os membros dos Wraygunn, que foram entrando em palco para a grande surpresa da noite. Já nos esquecíamos da falta que fazem, da onda de energia que são, das saudades que tínhamos de os ver. Tocam a inevitável She’s a Go Go Dancerque incendiou, como esperado, o Coliseu e de seguida uma canção nova que estará no novo álbum. Mostraram estar na boa forma de sempre e a música nova que se ouviu deixou no ar a promessa de um belo novo álbum. Que voltem o mais depressa possível.
Tigerman e Wraygunn saem e só Tigerman volta a entrar, para um segundo encore com a música que pôe um ponto final na noite da mesma forma que o faz em Femina: com perfeição absoluta. True Love Will Find You In The Endde Daniel Johnston é, diga-se, muito provavelmente das mais bonitas canções alguma vez escritas e a voz de Furtado dá-lhe um sussurro com alma inesperado para quem antes não a tinha ouvido ao vivo. Canta-a na perfeição, após mais de duas horas de um concerto grandioso, com a cortina a levantar-se e as luzes lentamente a serem acesas em todo o Coliseu. Momento indescritivelmente poético e memorável, que acabou por ser o reflexo do próprio Tigerman que é, diga-se, duro por fora mas mole por dentro.
“Muito obrigado por me terem dado uma das melhores noites da minha vida”, diz perante uma ovação feita por um público que se menteve sempre de pé, chamando de seguida todos os convidados para a ele se juntarem numa vénia final. Com um Coliseu esgotado a seus pés, tornou-se óbvia a marca que Furtado já deixou (felizmente!) na nossa música. Sai do palco com um sorriso no rosto e o público abandona o Coliseu da mesma forma.
Grande concerto que foi o puro reflexo de um grande músico. Por mais de duas horas estivemos dentro do universo de Legendary Tigerman; ouvimos a sua música e a música que o influenciou (desde Tom Waits àquela excelente versão de These Boots Are Made For Walking, de Nancy Sinatra), tocada por si e pelos amigos de que tanto gosta e tanto admira. Noite de consagração? Não, noite de mera confirmação. Com os discos que já editou, com os concertos que já deu, o valor de Paulo Furtado já era inegável e a noite vivida foi apenas todo o seu talento em todo o seu esplendor.
O Coliseu esgotado foi um mero sinal de que, felizmente, ainda há muita gente a reconhecer e a gostar de um grande músico quando o ouve. Legendary Tigerman foi ao Coliseu, deu um concerto magnífico, ambicioso como só ele pode dar (tão bem pensado e executado como só Furtado se lembraria de fazer) e arrebatou enquanto deu a constatar um mero facto: a palavra Lendário não está ali só pelo estilo. É já uma mera característica. Dele e desta noite com que nos brindou.
Reportagem Festival Náice
Nov 21st
Festival Náice - Fotos
19 de Novembro, dia de início da cimeira da NATO em Lisboa. Nada melhor que pôr-me de lá para fora assim que possível - eram isto cinco e meia da tarde, num comboio, sem exagero, com 20 carruagens, para compensar a deficiência no resto dos transportes. Assim, com um tempo de meter medo e que fazia esquecer o calor de Verão que hoje à noite esperávamos voltar a sentir, pés ao caminho do Porto, em direcção ao NÁICE!.
O propósito do festival é simples, não deixar esquecer aqueles três dias [ainda] inexplicáveis que se viveram em Barcelos em Julho que passou. À entrada, para os mais sortudos (acho que fomos todos), as sobras das t-shirts do Milhões de Festa eram distribuídas gratuitamente assim que éramos carimbados com o bonito logótipo da nova iniciativa da Lovers & Lollypops, para minutos depois se transformar num borrão azul.
O Plano B, local escolhido para o evento, ia-se compondo, nunca ficando totalmente lotado. Se os Fucked Up em Lisboa tiveram uma sala aconchegada, o Porto deu-lhes espaço, mas um companheirismo característico do norte. Áqueles que se atreveram a apontar simplesmente o aspecto de “Pink Eyes”, ponham os olhos no resto da banda – moços bem-apessoados e uma baixista a dar toques de português. Deu-se início à música com algum atraso e small talk pelo meio. Son the Father deu o tiro de partida para uma noite de punk simpático, de pessoas a voar e – surpreendam-se – cowdsurfs do robusto vocalista. Na setlist não ficou esquecida Black Albino Bones, Twice Born, nem Crooked Head. Os acontecimentos em Lisboa trouxeram também problemas aos canadianos: ao aterrar em Lisboa, foram encaminhados para a sala de segurança do aeroporto por terem um ar “diferente”. Nem os seguranças perceberam porque é que os Arcade Fire os tinham escolhido para a abertura do concerto que, para mal ou para bem dos nossos pecados, acabou por ser cancelado. Justifica-se tão simplesmente com bom gosto.
Três guitarras em palco – de aparência pacata e muito sossegados por comparação -, uma máquina atrás da bateria, um baixo desenrascado e um vocalista carismático foram a receita para uma noite de festa, enquanto Damian se passeava pelo meio do público, gritando na nossa cara e carregando uns quantos inocentes ao ombro. As roupas foram ficando pelo caminho, para desnudarem a tatuagem de Down que ostenta ao peito.
Num teste de escolha múltipla, os nortenhos decidiram não optar entre Nirvana ou Ramones, e escolher livremente Black Flag para um quase fecho daquilo a que realmente se pode chamar de punk nos dias de hoje. “Nervous Breakdown” foi a música que a banda escolheu.
A terminar um concerto “f*dido” poesia declamada pelo peso pesado do Canadá, “peace or anihilation” em resumo. Dão então início à tour com os Arcade Fire, que ainda não conhecem nem sabem como abordar.
Depois disto, as cortinas da Sala 1 fecharam-se para a montagem do cenário dos Throes. Duo que se julgava em coma desde Julho e que reapareceu para um revival, de pés no chão e rodeados de um público, agora, tímido. Além do singular EP Dirty Glitter ter sido tocado na integra com algumas alterações na extra Killing Tomatoes, deu-se ainda espaço a dois temas novos, “We Die in Texas” a abrir e uma africanísse chamada “Pink Dracula”, possível causadora de surpresas que viriam a surgir ao longo da noite.
Na Sala Cubo, tocam agora os The Shine, também ex-hóspedes do palco da piscina no Milhões. Hardcore e Kuduro numa noite, não é para quem pode (já dizia Damian dos Fucked Up), é para quem vê as duas faces da moeda. Dançou-se, com Diron e André do Poster que também se misturavam com o público. Breakdance antes de haver vidros partidos no chão, deixaram o terreno do Cubo bem apalpado para o francês exótico que se lhes seguiria.
Ao mesmo tempo, Lovers & Lollypops Soundsystem, agora estilizados L&L SS, faziam a sua cena na sala ao lado, havendo uma divisão equilibrada no que diz respeito a mancha gráfica de público. Durante boa parte da noite, até ao fim, na verdade, Nuno Dias e aparições ocasionais de Joaquim Durães (o patrão de todas estas coisas que acontecem) foram dizendo adeus a quem já mal aguentava esta noitada depois de uma semana de trabalho.
Myd, francês cujo bigode encaixa perfeitamente nas descrições de Conan O’Brien, assumiu o topo dos televisores e o ritmo manteve-se. Uma tropicália de sons que gradualmente foi perdendo ouvintes, mesmo depois de Train to Bamako ter sido tão publicitada.
Não sabemos ao certo o que aconteceu aos Sun-Explosion. Já não estávamos lá para ver, porque também a nós nos dá o cansaço (parecendo que não), mas conclui-se que a noite foi das boas.
Ainda não se desvendou nada sobre o próximo Milhões de Festa (sabemos que há, no entanto), ou sobre o próximo NÁICE!.
Sabemos que queremos estar lá outra vez.
Reportagem SBSR 2010 – 18 de Julho
Jul 19th
A 16ª edição do festival Super Bock Super Rock teve o seu desfecho ontem (dia 18), totalizando, assim, três dias de concertos na Herdade do Cabeço da Flauta, no Meco. Apesar das múltiplas queixas, especialmente dos que decidiram acampar, como a falta de luz, o pó, o estado do terreno e a má acessibilidade, a organização do festival soube juntar um cartaz que agradou a muitos, que, pelo amor à música, suportaram todos os malefícios. Este foi o dia de Prince, The National e John Butler Trio, entre outros, agitarem as hostes.
Foi Jorge Palma e o seu super grupo que deu uso, em primeiro lugar, ao palco principal. Tanto a sua prestação, que roçava o cómico, como os êxitos do eloquente intérprete português ("Encosta-te a Mim" sendo o mais celebrado por um público mais jovem), contribuíram para a moderada diversão de quem o assistia, a meio da tarde. Um pouco depois, os lisboetas Stereo Parks, os terceiros vencedores do Super Bock Super Rock Preload, pouco aqueceram o palco secundário com a sua música previsível e escassamente original, com as influências do costume do indie rock.
Os galeses Stereophonics, apesar de também carecerem de originalidade, fazendo lembrar Oasis e The Beatles alternadamente, mostraram uma grande qualidade técnica ao vivo, face a um público que (ainda) pouco reagia. Kelly Jones, voz e líder do conjunto, de tudo fez para aliciar o público a mexer-se, incitando palmas e berros, mas só o conseguiu a vociferar os êxitos chorudos "Maybe Tomorrow", "Have a Nice Day" e "Dakota" da banda britpop.
Pouco depois, os The Morning Benders deram um concerto bem simpático para quem os assistia no palco EDP. Apresentando o recém-editado The Big Echo, Chris Chu e a sua trupe passaram por "Excuses" e "Promises", entre outros, temas que suscitaram o carinho dos fãs atentos que os seguiam em palco. Um exemplo de uma banda indie pop bem conseguida, na onda de Local Natives e Surfer Blood.
Apesar de os Spoon terem de partilhar a atenção do público com a avioneta telecomandada que sobrevoava o palco Super Bock, estes abriram mão dos grandes temas do seu historial, marcados sempre por uma imprevisibilidade experimental e inconstância de influências musicais. "The Way We Get By", "The Underdog" e "Don’t You Evah" foram alguns dos apresentados, tal como as novas "Got Nuffin", "Is Love Forever?" e "Transference", todas capazes de fazer bater o pé aos ritmos groovy da banda texana. No entanto, o público continuava pouco entusiasmado, porventura por esperar o grande nome que se seguia.
Ficámos impossibilitados de ver Wild Beasts, que tocaram praticamente sobrepostos aos Spoon, algo que acontece com a existência de dois palcos que recebem artistas ao mesmo tempo. Porém, já era de noite quando os The National foram recebidos com o entusiasmo e o delírio que só uma banda de culto pode suscitar – fãs incondicionais dos americanos debatiam-se para chegar às filas dianteiras e bradavam o seu afecto. Sombrios e sóbrios de aparência, a banda fez-se acompanhar por dois elementos nos instrumentos de sopro que trouxeram uma maior profundidade aos temas solenes e por vezes melancólicos dos artistas. "Mistaken for Strangers", "Fake Empire", "Slow Show" foram alguns dos temas de Boxer que Matt Berninger interpretou, de punhos ao peito, com um sentimentalismo afectado, mas os "England", "Anyone’s Ghost" e "Terrible Love" de High Violet não lhes ficaram atrás. Um concerto de crescendos emotivos que culminou na belíssima "About Today", confirmando-se a inegável qualidade da banda americana que fez apaixonar os inúmeros amantes da música.
Seguiram-se duas actuações no palco secundário, que preencheram o enorme intervalo que precedia a actuação de Prince. Sharon Jones e os Dap Kings deram um concerto formidável de funk e soul, que fez inveja a muita gente. Jones, rainha do movimento revivalista destes dois géneros musicais, não parou quieta e parecia igualável a grandes senhoras como Aretha Franklin e Ella Fitzgerald. Os temas de I Learned the Hard Way foram os mais contemplados num concerto energético, que subiu a fasquia para os músicos seguintes.
Os John Butler Trio, muito conhecidos e adorados em Portugal, deram um concerto que se adequou perfeitamente à onda do festival: sol, descontracção e ‘boas vibrações’. O blues rock com travo a reggae e roots era a máxima e o trio australiano proporcionou bons momentos de qualidade ao público português, que o apreciou ao máximo. "Better Than" e "Used to Get High" foram alguns dos destaques de um concerto harmonioso.
Pouco passava da meia-noite e já o nome de Prince era entoado pelo público de quase 32 mil pessoas, que sufocou os acessos ao recinto, tal foi a sua adesão. A hora do funk começou quando o artista entrou em palco, pedindo de imediato a participação dos fãs em "Delirious". A energia e boa disposição de Prince foram norma num set que passou por alguns dos seus melhores momentos musicais, daquela que é uma das maiores estrelas dos anos 80. Este empunhava a sua guitarra em floreados poderosos que marcavam o passo, dançando com o seu coro e recusando-se a que o público português parasse – este clamando as letras de grandes êxitos, como "1999", "Let’s Go Crazy", "Cream" e "U Got The Look". Numa mútua adoração, o artista pedia e os fãs cumpriam, quer a saltar, quer a entoar as melodias conhecidas. Entre falsetes e piruetas, Prince acabou por se ausentar durante uns minutos para mudar de vestuário, seguindo-se um dos momentos mais esperados do concerto: a entrada da fadista Ana Moura em palco, a grande admirada do cantor. "A Sós com a Noite" e "A Casa da Mariquinhas" mostraram a potência vocal da cantora, visivelmente satisfeita por lá estar, e a destreza musical de Prince na guitarra. Inesquecível, tal como as duas canções mais pedidas, tocadas entre exclamações de adoração ao povo português e referências religiosas. "Kiss" levou ao delírio dos fãs e "Purple Rain" impressionou com o grande coro do artista mundial. O lendário cantor acabou por se despedir com "Dance (Disco Heat)", pondo fim a um dos melhores concertos do festival e a grande prova da imensa qualidade musical do artista. Prince Rogers Nelson, de 52 anos de idade, prova-se mais do que apto para oferecer um concerto colossal.
Por fim, o desfecho do festival ficou a cargo dos Empire of the Sun, que conjugam a música electrónica com um teatralismo cénico, provido de bailarinas, projecções e fatos excêntricos e coloridos. Apesar de uma parte visualmente mais rica do que propriamente a musical, os australianos conseguiram entreter os que restavam após o grandioso concerto de Prince.
Fica assim um balanço do evento que, apesar das péssimas condições de acampamento e algumas falhas da organização, conseguiu trazer vários nomes de interesse ao Meco. Esperemos que, na próxima edição, estas sejam repensadas e ajustadas para ajudar a aumentar o bem-estar e conforto dos festivaleiros num dos eventos de ‘peso pesado’ da música ao vivo em Portugal.
Foto: Ana Limas
Reportagem Marés Vivas 2010 – 16 de Julho
Jul 17th
O segundo dia do Festival Marés Vivas inicia-se com mais público e mais vento.
O Palco Moche abriu com Mónica Ferraz e André Indiana. A vocalista dos Mesa sobe ao palco para apresentar canções do seu novo álbum a solo “Start Stop”. “Go go go” foi um dos momentos com mais interacção com o público. André Indiana seguiu-se num concerto longo com algumas falhas de som veio mostrar também o seu novo álbum.
A tenda do Palco Moche já se encontrava bem preenchida no fim do concerto e a espera fez-se sentir para o inicio d'Os Azeitonas. Estes subiram ao palco e apenas tiveram 15 minutos de “sossego” pois os A Silent Film actuavam no palco principal o que fez com que a qualidade sonora do concerto diminuísse. A banda referiu ainda que o som do palco principal se ouvia melhor e que portanto não poderiam tocar temas mais calmos mas sim músicas mais mexidas. Muita foi a dança e interacção com o público, a animação era constante. “Quem és tu miúda”, Ela foi para a guerra”, “Café Hollywood”, “Corre” e “Mulheres Nuas” foram algumas das músicas ouvidas num concerto que teve direito a encore pois milhares de pessoas não arredavam pé da frente do palco.
Ainda de dia inicia-se a música no palco principal com A Silent Film. Os meninos britânicos vieram mostrar o seu álbum de estreia editado em 2009 “The City That Sleeps”.”Sleeping Pills”, “Julie June” e “The Stage Is Your Life” foram alguns dos temas tocados. O grande momento do concerto deu-se com "You Will Leave a Mark" que fechou o concerto em grande com o público a cantar e a dançar.
David Fonseca seguiu-se. “I want to break free” dos Queen serviu de mote para a sua entrada em palco dentro de uma cabina telefónica. Com muitas luzes de néon a sua energia em palco fez-se sentir ao longo do concerto e a festa foi de todos. “Walk away, When you´re Winning”, “Owner of her Heart”, “Learn Sometimes”, “Someone that Cannot Love” e “A Cry 4 Love” foram alguns dos temas tocados. Os momentos altos da noite deram-se com "The 80’s","Stop for a Minute" e "Girls Just Wanna Have Fun", porque segundo ele as raparigas sabem-se divertir bem mais que os rapazes. Para aumentar a fasquia desta grande festa houve ainda tempo para papeizinhos azuis e amarelos lançados sobre o público e faíscas de luzes em “Silent Void” fechando assim o concerto.
Mas muitas pessoas estavam lá para ver os Placebo, depois de no ano anterior terem dado um concerto num festival em Lisboa foi a vez do norte os receber. O último álbum editado em 2009 “Battle for The Sun” esteve em grande destaque levando o público a histeria. “All Apologies” dos Nirvana foi o momento mais alto da actuação contudo alguns temas mais antigos como “Every Me and Every You”, “Song to Say Goodbye”, “Meds”, “The Bitter End” e “Infra-red” colocaram o público aos saltos. “Taste in Men” fechou com chave de ouro um concerto que muitos desejavam que fosse mais longo.
Muitos festivaleiros abandonaram o recinto após Placebo mas Peaches não desiludiu os que não deixaram a festa a meio. A cantora canadiana entrou em palco com um fato que a tapava da cabeça aos pés. A encenação feita por duas personagens, apenas vestidas com roupa interior, cujos cabelos exagerados lhes tapava o rosto complementava “Talk to Me”. Durante “Billionaire” a cantora passeou em pé pelas grades, atirando-se de seguida para o público. Pediu então ao público que guardasse todos os telemóveis e câmaras, porque senão iria dar-lhes um pontapé e disse “Jesus walk on water, Peaches walk on you”. Enquanto cantava “Take You On”, andava de pé com as mãos do público a segurá-la. Um momento excêntrico, onde a cantora de braços no ar, apenas se encontrava segura pelas pernas. "Showstopper", "Serpentine" e "Boys" fizeram-se ouvir e a resposta do público foi imediata, muitas dançavam, outras saltavam e outros cantavam mas ninguém ficou indiferente à excentricidade da vocalista. Para encore ouviu-se "Set It Off” e ainda houve tempo para a cantora pedir ao público para tirar as t-shirts e logo foi correspondida.
Mais uma noite que acaba em grande no Festival Marés Vivas com mais de 24 mil pessoas.
A última noite do festival conta com Ben Harper, Editors, Deus, Nikolaj Grandjean no Palco Principal.
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Reportagem Marés Vivas 2010 - 15 de Julho |
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Reportagem Marés Vivas 2010 - 17 de Julho |
Reportagem The Cranberries
Mar 11th
No dia 10 de Março, o Campo Pequeno encheu para receber os tão esperados The Cranberries, reunidos de novo, sete anos após terem temporariamente deixado o cenário musical. Depois da abertura, a cargo dos Outside Royalty, que aqueceram o público – na sua maioria já bem adulto – com a sua música indie-rock, a banda irlandesa entrou em palco.
A simpática Dolores O'Riordan desde cedo presenteou os fãs com a sua boa-disposição e energia em palco. Na plateia, viam-se bandeiras irlandesas e cachecóis de Portugal. Analyse – a eleita para abrir o espectáculo – foi entoada na perfeição pelos fãs juntamente com a voz inconfundível da vocalista, sem dúvida o elemento essencial na origem do som característico da banda.
Entre elogios ao bom tempo e aos belos jardins por onde passeou durante o dia, Dolores deu ares da sua graça irlandesa e espalhou a boa disposição pelo recinto. Animal Instincts deleitou o público, antecedendo temas como Linger – que levou a plateia a erguer câmaras e telemóveis para registar aquele que foi um dos muitos momentos altos e emocionantes da noite – ou When You’re Gone.
Ao contrário da maioria, a banda irlandesa optou por um início mais calmo, onde ainda se ouviram temas como How e Dreaming My Dreams, deixando as músicas mais energéticas para o meio do concerto. Wanted começou a aquecer os fãs e Liar, que se lhe seguiu, teve direito a uma pequena dança irlandesa por parte da vocalista. Desperate Andy manteve a energia em alta antes da animada I Can’t Be With You, que antecedeu outro dos momentos altos, proporcionado por Ode To My Family.
O público não se cansou de dançar, saltar, cantar e aplaudir, ganhando assim inúmeros elogios da cantora, que afirmou ser esta a melhor audiência da Europa, que sabe como “apreciar a vida”. Para além disso, teve ainda direito a temas como Ordinary Day – esta dedicada à segunda filha de Dolores O'Riordan – e The Journey, originais do trabalho a solo da cantora.
Free To Decide antecedeu Salvation, que estimulou o já delirante público de braços no ar. Após Ridiculous Thoughts, foi a vez de Zombie elevar as vozes no recinto e espalhar a loucura pelo espaço, antes do encore. Embora tenha durado pouco, foi neste período de tempo que, para quem ainda tivesse dúvidas, a plateia mostrou que a idade é um estado de espírito: as palmas, os saltos, as entoações, os assobios e os gritos praticamente fizeram sentir-se no Saldanha. Shattered abriu a parte final do concerto, antecedendo The Journey; ainda se ouviu Promises e Dreams encerrou a noite. A banda abandonou o palco perante uma ovação por parte dos fãs, que mostraram ainda mais entusiasmo quando Dolores O'Riordan exprimiu o seu desejo de voltar em breve a palcos nacionais.
Reportagem Super Bock Super Rock Porto
Jul 12th
Foi com um duro golpe que o Super Bock Super Rock, no Porto, abriu as portas para a sua 15ª edição. O cancelamento dos Depeche Mode, grandes headliners da noite, e a promessa de devolução do dinheiro do bilhete àqueles que assim o pretendessem fizeram com que pouca gente estivesse no recinto à hora de abertura, algo que fazia prever um estádio do Bessa pouco composto.
A abertura do festival coube a um das bandas vencedoras do já habitual concurso “Super Bock Super Rock Preload”, os Soapbox. Constituídos por cinco membros, a banda oriunda de Lisboa, actuou para um pequeno grupo, composto essencialmente de amigos e familiares, com um alinhamento de quatro músicas. Foi uma boa prestação de rock alternativo, bem escolhido para o inicio do dia.
De seguida, entrou em palco o duo Motor, que trazia consigo um set de músicas situadas entre o techno e o electro e uma frase mote que repetiriam várias vezes durante a sua curta actuação: “We are MO-TOR!”. A performance demonstrou-se enérgica, mas teria sido mais apropriado se a banda, pelo seu estilo mais dançável, tivesse actuado no fim da noite.
Um backdrop preto com letras brancas anunciava a banda seguinte, uma das mais esperadas do dia: Peter, Bjorn and John surgiram no palco vestidos a preceito e com uma atitude muito positiva para partilhar com a audiência. Lançando-se de imediato ao seu indie rock, conseguiram um feedback dos presentes que ainda não se tinha sentido: palmas, músicas trauteadas eassobios eram audíveis, até mesmo um “És lindo” de um membro masculino já bastante embriagado. “Nothing to worry about” e “Lay it Down” foram alguns dos temas que agradaram o público, mas foi com a reconhecida e assobiável “Young Folks” que o primeiro pico de êxtase da noite se deu. Todo o recinto assobiava e dançava ao som da música. Um dos vocalistas desceu até junto do público e percorreu a primeira fila, distribuindo cumprimentos por todos, deixando um sorriso na cara da maioria, algo que aproximou ainda mais público e banda. De regresso ao palco, a performance continuou, com movimentos de dança muito expressivos de Peter e com um convite para acompanhar uma música entoando um“La La La” melódico. Um actuação muito agradável e próxima, que fez com que o público que até ai se espalhava pelo recinto se aproximasse do palco, revelando já uma massa considerável de pessoas presentes.
Os Nouvelle Vague são já uma presença assídua em Portugal e foram os seguintes a actuar. Uma recepção calorosa esperava-os e estes corresponderam em tudo com a sua performance, o melhor concerto da noite. Houve dança, houve teatro, houve uma incrível interacção com o público que deixou toda a gente no auge. As vocalistas, uma loira e uma morena, brincavam com o espaço e com o público, incitando este a cantar e a repetir as suas músicas.“Too drunk to fuck”, “Blister in the Sun” e até a “Just can’t get enough” dos Depeche Mode foram interpretadas com uma expressividade incomum e uma alegria incomparável que se alastrou a toda a audiência, especialmente quando uma das cantoras resolveu ela também conquistar o poço e indo ainda mais longe,saltando as grades e envolvendo-se no meio do público, aos abraços e risos, com tempo até para uma ou outra fotografia. De volta ao palco, foi possível escutar uma versão de “God Save The Queen” apenas com uma guitarra acústica e uma voz doce e, por fim, o clássico “Love Will Tear Us Apart”, que deliciou o público. Um concerto muito consistente e forte, com as emoções à flor da pele e um poder espectacular.
Os The Gift foram os seguintes no alinhamento. Substitutosdos Depeche Mode, a par dos Xutos e Pontapés, entraram com muita energia e tentaram ao máximo oferecer um concerto animado, tentando colmatar a grande falha da noite, tarefa praticamente impossível. Apesar deste peso sobre os ombros, deram um bom espectáculo, puxando pela audiência, que nesta altura já era bastante considerável, enchendo quase metade do campo do Bessa. Temas como “Ok! Do you wantsomething simple”, “11:33”, “Fácil de entender” e “Driving you slow” foram ouvidos e cantados pelos festivaleiros. Sónia Tavares agradeceu a presença de todos, demonstrou o seu agrado em estar de regresso ao Porto e entreteu de forma bastante positiva quem a estava a ver. Um bom saldo para um concerto de substituição.
Encerrando a noite, foi a vez dos conhecidos rockeiros portugueses Xutos e Pontapés apresentarem o seu alinhamento, com um público bastante entusiasmado e receptivo à sua espera. Foram ouvidos tanto os clássicos da banda, aquelas músicas que todos sabemos de cor, passados tantos anos, bem como temas do seu homónimo álbum novo. Presenciou-se um típico concerto de Xutos, familiar e conhecido entre o público português. Fazendo uma retrospectiva a toda a noite e tendo em conta aquilo que poderia ter sido com o cancelamento dos Depeche Mode, há que salientar o resultado positivo deste evento. Foram vistos e ouvidos bons concertos, que tentaram preencher a lacuna deixada e que, nem que por breves momentos, fizeram esquecer o motivo porque gostaríamos de estar ali: Depeche Mode.
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