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Reportagem Long Distance Calling – MusicBox
Jun 9th
Noite sem palavras, mas em que as guitarras tudo disseram, num Musicbox bem composto em noite de Domingo. Viam-se pela sala fãs de Löbo, fãs de Long Distance Calling, todos eles fãs de música que vive do som e não de palavras, que envolve com muralhas de som e não com vozes.
Os Löbo, quarteto português, foram os primeiros e acabariam por ser os melhores. Intensos e poderosos ao vivo, com coordenação quase perfeita entre os quatro membros (sofreram recentemante mudanças na formação, e as falhas que têm rapidamente serão corrigidas pelo maior remédio de todos: o tempo) na criação de um som envolvente e, por vezes, arrepiante.
Não são post-rock, não são metal, não são doom, nem são nada que encaixe num género; são uma rajada de ar fresco, a fazer numas vezes os Swans, noutras os Godspeed You! Black Emperor, mas sempre soando únicos. Tudo é unido pelo excelente baterista (que, com aquela energia, parece que a qualquer momento vai saltar do instrumento e atirar-se ao público), e pelas teclas, que criam as melodias que vão sendo depois preenchidas de forma perfeita pelo baixo e guitarra, em sintonia.
As músicas são longas, envolventes, num crescendo directo que nunca brinca com as expectativas e vai sempre em direcção ao que quer. As explosões não são repentinas, mas antes planeadas e impressionantes na forma como ocorrem. Talento ali não falta; deram o concerto da noite, e agora resta esperar pelo crescimento inevitável. Mais prática, mais tempo a tocar todos juntos, e chegarão num instante àquilo de que já se aproximam: uma grande banda. Quem os for ver ao vivo sem os conhecer, sairá agradavelmente surpreendido; quem os for ver já tendo ouvido o excelente Älma, único EP da banda até agora, sairá com expectativas confirmadas e até superadas. E, seja qual for o caso, a vontade de os rever impera.
Os Long Distance Calling, o segundo quarteto da noite que chegou não muito depois, mostraram-se competentes, energéticos, mas mais genéricos e menos impressionantes. Um post-rock mais hard (ou doom, ou seja lá o que for), sempre directo e apostando em guitarras fortes e simples e não em camadas de som, como se poderia esperar.
Perto de hora e vinte minutos de energia pura, com um público sempre convencido e envolvido, agradecendo com um headbanging suave que acompanha aquela bateria (excelente e impressionante, tal como o que já antes tinha pisado o palco) e aquelas guitarras. Um dos guitarristas é claramente o mais carismático e caricato do grupo: vai correndo pelo palco, aproxima-se da berma com língua de fora, e não fica um segundo parado.
Arecibo, por exemplo, é duma energia que contagia facilmente os presentes, mas nunca deixa de soar a algo que já ouvimos antes. São óptimos no que fazem, mas sente-se o que já se sentia em disco: um potencial que não está ainda totalmente explorado, uma banda que pode ir mais além. O concerto esteve longe de desiludir, e nunca esteve abaixo de entusiasmar minimamente, mas espera-se agora que continuem a evoluir e que em breve cheguem a um patamar superior. Por agora, ficamos com este belo concerto que, mesmo deixando um sabor familiar na boca, mostrou uma banda de qualidade.
Dois belos concertos, o primeiro melhor que o segundo, de duas bandas que trabalham o som de formas diferentes (os Löbo atrevem-se a experimentar mais e a esticar ao máximo as suas canções, enquanto que os Long Distance Calling vão por um caminho mais directo), mas de formas igualmente satisfatórias.
Ambas as bandas podem chegar mais além, e ambas têm um inegável potencial que o tempo há-de explorar da melhor forma. Por agora, ficamo-nos com esta óptima noite, em que guitarras e baterias disseram tudo o que havia dizer, e em que as muralhas do som envolveram de excelente forma todos os presentes.
Desilusões, essas, dificilmente terão havido.
Reportagem SBSR 2010 – 18 de Julho
Jul 19th
A 16ª edição do festival Super Bock Super Rock teve o seu desfecho ontem (dia 18), totalizando, assim, três dias de concertos na Herdade do Cabeço da Flauta, no Meco. Apesar das múltiplas queixas, especialmente dos que decidiram acampar, como a falta de luz, o pó, o estado do terreno e a má acessibilidade, a organização do festival soube juntar um cartaz que agradou a muitos, que, pelo amor à música, suportaram todos os malefícios. Este foi o dia de Prince, The National e John Butler Trio, entre outros, agitarem as hostes.
Foi Jorge Palma e o seu super grupo que deu uso, em primeiro lugar, ao palco principal. Tanto a sua prestação, que roçava o cómico, como os êxitos do eloquente intérprete português ("Encosta-te a Mim" sendo o mais celebrado por um público mais jovem), contribuíram para a moderada diversão de quem o assistia, a meio da tarde. Um pouco depois, os lisboetas Stereo Parks, os terceiros vencedores do Super Bock Super Rock Preload, pouco aqueceram o palco secundário com a sua música previsível e escassamente original, com as influências do costume do indie rock.
Os galeses Stereophonics, apesar de também carecerem de originalidade, fazendo lembrar Oasis e The Beatles alternadamente, mostraram uma grande qualidade técnica ao vivo, face a um público que (ainda) pouco reagia. Kelly Jones, voz e líder do conjunto, de tudo fez para aliciar o público a mexer-se, incitando palmas e berros, mas só o conseguiu a vociferar os êxitos chorudos "Maybe Tomorrow", "Have a Nice Day" e "Dakota" da banda britpop.
Pouco depois, os The Morning Benders deram um concerto bem simpático para quem os assistia no palco EDP. Apresentando o recém-editado The Big Echo, Chris Chu e a sua trupe passaram por "Excuses" e "Promises", entre outros, temas que suscitaram o carinho dos fãs atentos que os seguiam em palco. Um exemplo de uma banda indie pop bem conseguida, na onda de Local Natives e Surfer Blood.
Apesar de os Spoon terem de partilhar a atenção do público com a avioneta telecomandada que sobrevoava o palco Super Bock, estes abriram mão dos grandes temas do seu historial, marcados sempre por uma imprevisibilidade experimental e inconstância de influências musicais. "The Way We Get By", "The Underdog" e "Don’t You Evah" foram alguns dos apresentados, tal como as novas "Got Nuffin", "Is Love Forever?" e "Transference", todas capazes de fazer bater o pé aos ritmos groovy da banda texana. No entanto, o público continuava pouco entusiasmado, porventura por esperar o grande nome que se seguia.
Ficámos impossibilitados de ver Wild Beasts, que tocaram praticamente sobrepostos aos Spoon, algo que acontece com a existência de dois palcos que recebem artistas ao mesmo tempo. Porém, já era de noite quando os The National foram recebidos com o entusiasmo e o delírio que só uma banda de culto pode suscitar – fãs incondicionais dos americanos debatiam-se para chegar às filas dianteiras e bradavam o seu afecto. Sombrios e sóbrios de aparência, a banda fez-se acompanhar por dois elementos nos instrumentos de sopro que trouxeram uma maior profundidade aos temas solenes e por vezes melancólicos dos artistas. "Mistaken for Strangers", "Fake Empire", "Slow Show" foram alguns dos temas de Boxer que Matt Berninger interpretou, de punhos ao peito, com um sentimentalismo afectado, mas os "England", "Anyone’s Ghost" e "Terrible Love" de High Violet não lhes ficaram atrás. Um concerto de crescendos emotivos que culminou na belíssima "About Today", confirmando-se a inegável qualidade da banda americana que fez apaixonar os inúmeros amantes da música.
Seguiram-se duas actuações no palco secundário, que preencheram o enorme intervalo que precedia a actuação de Prince. Sharon Jones e os Dap Kings deram um concerto formidável de funk e soul, que fez inveja a muita gente. Jones, rainha do movimento revivalista destes dois géneros musicais, não parou quieta e parecia igualável a grandes senhoras como Aretha Franklin e Ella Fitzgerald. Os temas de I Learned the Hard Way foram os mais contemplados num concerto energético, que subiu a fasquia para os músicos seguintes.
Os John Butler Trio, muito conhecidos e adorados em Portugal, deram um concerto que se adequou perfeitamente à onda do festival: sol, descontracção e ‘boas vibrações’. O blues rock com travo a reggae e roots era a máxima e o trio australiano proporcionou bons momentos de qualidade ao público português, que o apreciou ao máximo. "Better Than" e "Used to Get High" foram alguns dos destaques de um concerto harmonioso.
Pouco passava da meia-noite e já o nome de Prince era entoado pelo público de quase 32 mil pessoas, que sufocou os acessos ao recinto, tal foi a sua adesão. A hora do funk começou quando o artista entrou em palco, pedindo de imediato a participação dos fãs em "Delirious". A energia e boa disposição de Prince foram norma num set que passou por alguns dos seus melhores momentos musicais, daquela que é uma das maiores estrelas dos anos 80. Este empunhava a sua guitarra em floreados poderosos que marcavam o passo, dançando com o seu coro e recusando-se a que o público português parasse – este clamando as letras de grandes êxitos, como "1999", "Let’s Go Crazy", "Cream" e "U Got The Look". Numa mútua adoração, o artista pedia e os fãs cumpriam, quer a saltar, quer a entoar as melodias conhecidas. Entre falsetes e piruetas, Prince acabou por se ausentar durante uns minutos para mudar de vestuário, seguindo-se um dos momentos mais esperados do concerto: a entrada da fadista Ana Moura em palco, a grande admirada do cantor. "A Sós com a Noite" e "A Casa da Mariquinhas" mostraram a potência vocal da cantora, visivelmente satisfeita por lá estar, e a destreza musical de Prince na guitarra. Inesquecível, tal como as duas canções mais pedidas, tocadas entre exclamações de adoração ao povo português e referências religiosas. "Kiss" levou ao delírio dos fãs e "Purple Rain" impressionou com o grande coro do artista mundial. O lendário cantor acabou por se despedir com "Dance (Disco Heat)", pondo fim a um dos melhores concertos do festival e a grande prova da imensa qualidade musical do artista. Prince Rogers Nelson, de 52 anos de idade, prova-se mais do que apto para oferecer um concerto colossal.
Por fim, o desfecho do festival ficou a cargo dos Empire of the Sun, que conjugam a música electrónica com um teatralismo cénico, provido de bailarinas, projecções e fatos excêntricos e coloridos. Apesar de uma parte visualmente mais rica do que propriamente a musical, os australianos conseguiram entreter os que restavam após o grandioso concerto de Prince.
Fica assim um balanço do evento que, apesar das péssimas condições de acampamento e algumas falhas da organização, conseguiu trazer vários nomes de interesse ao Meco. Esperemos que, na próxima edição, estas sejam repensadas e ajustadas para ajudar a aumentar o bem-estar e conforto dos festivaleiros num dos eventos de ‘peso pesado’ da música ao vivo em Portugal.
Foto: Ana Limas
Reportagem The Fiery Furnaces
Feb 27th
De todas as duplas musicais contemporâneas, os músicos que actuaram ontem no Santiago Alquimista serão, certamente, uma das mais interessantes. Os The Fiery Furnaces estrearam-se na sala lisboeta mais que lotada e ofereceram um espectáculo agradável, porém algo longo, aos curiosos espectadores.
A banda composta pelos irmãos Matthew e Eleanor Friedberger já desde o ano 2000 que se dá a conhecer, tendo editado oito álbuns até ao presente ano. Os americanos apresentaram, na sua maioria, temas do recente "I’m Going Away" (2009), um registo art pop imprevisível, ao vivo demostrando-se tão punk como rockeiro. Foi através das modificações dos temas, tornando-os praticamente irreconhecíveis, que se pôde verificar a versatilidade dos irmãos. Matthew dedilhava a guitarra sem esforço em devaneios inspirados, Eleanor entoava os lirismos estranhos de forma despreocupada e, assim, passaram por alguns dos momentos altos da sua carreira, acompanhados por uma banda de suporte.
Com uma entrada de rompante, “Rub-Alcohol Blues” tomou as rédeas e a atenção do público, passando por “Charmaine Champagne”, “The End is Near” e “Keep Me in the Dark” do mais recente trabalho. Com a habilidade de nos tirar o tapete dos pés cada vez que achamos que estamos a entrar em território familiar, os Fiery Furnaces vão para além da influência clássica do rock dos anos 70 e assumem a sua vertente experimental e até progressiva, nas suas mudanças de tempo frenéticas e letras pouco convencionais. Assim, Eleanor, parecendo uma Patti Smith e calçada com as famosas botas que deram o nome a uma canção dos Franz Ferdinand, pede desculpa por ter perdido a voz e cativa os fãs no ambiente intimista do Alquimista, apesar de poucas terem sido as pausas no rodopio instrumental do set dos músicos.
Este deu ainda para dois encores, incitados pelo entusiasmo do público, marcados por “Tropical Ice-Land” e “I’m In No Mood”, certamente os pontos altos de um concerto coerente. Destaque para Bob D’Amico, o baterista talentoso que marcava o passo de forma exímia.
Reportagem Air – Coliseu dos Recreios
Jan 17th
Passados que estão agora quase quatro anos desde a última vez que assentaram pé em terras lusas, estão de volta ao palco que haviam partilhado com os Fischerspooner e os Digitalism em 2007.
À entrada de George Pringle, o Coliseu estava quase preenchido. Não nos deixemos levar por nomes, Georgina Richards-Pringle, é uma performer londrina que se serve do GarageBand para mostrar a sua música. Para o público presente, esse básico foi bastante evidente. As músicas eram de uma coerência particular, às vezes confusa e não fizeram com que o Coliseu se movesse muito.
Infelizmente foi também a situação em que os Air viram a sua actuação. Ao entrar em palco, sem necessidade de apresentações, deram início ao concerto com aquilo que parecia ser Space Maker, masque se transformou em Do the Joy, em jeito de apresentação do último álbum. Ainda com Love 2, seguiu-se So Light is Her Footfall e o “samba” de Love. O concerto revestia-se já de uma pequena aposta em fundos suaves, quando foi a altura de Venus, surgiu a imagem do grande planeta, e tornaram-se desnecessárias apresentações de Talkie Walkie. Jean-Benoît Dunckel afemininava a sua voz.
Cherry Blossom Girl e Playground Love (em intrumental, a adquirir o nome de Highschool Lover) fizeram também parte uma setlist morna.
Não seria de surpreender que os lisboetas escolhessem estes franceses como a banda sonora de uma vida. Be a Bee foi um dos pontos mais mexidos de toda a noite, e ainda assim, era difícil arrancar colaboração do mar de gente que se juntou nos Recreios.
Depois de How Does it Make You Feel?, Nicolas Godin passou a um registo bilingue com Alpha Beta Gaga. Mesmo que quiséssemos acompanhar os assobios, o som demasiado alto impedia que os lisboetas se fizessem ouvir.
A encerrar uma primeira parte, Kelly Watch the Stars saída de Moon Safari (álbum cuja falta se fez sentir) fez o Coliseu explodir em palmas. De regresso, SexyBoy e Heaven’s Light foram o adeus.
Na sua 14ª edição, o festival SWR Metalfest realizou-se novamente na pequena vila de Barroselas. A cada ano que passa, aquele que é considerado o melhor festival português dedicado ao som mais pesado, supreende sempre pela positiva todos os que por lá passam durante os três dias, seja pela melhoria de condições, som, luzes e, sobretudo, o cartaz alinhado. Cartaz esse que, nesta 14ª edição, muito provalmente, terá atingido o topo em termos de nomes conhecidos.